Discente: Gizelly Fernandes Maia dos Reis Soares

Título da tese: A prosódia dos vocativos no português do Brasil

Orientador(a): João Antônio de Moraes

Coorientador(a): Albert Olivier Blaise Rilliard

Ano da defesa: 2020

Páginas: 188

Resumo:

O presente trabalho objetivou investigar de que forma o vocativo é prosodicamente realizado no português do Brasil, a partir de uma abordagem fonética. A fim de descrever o comportamento prosódico dos vocativos, realizamos uma pesquisa empírica, baseada na análise de quatro corpora experimentais controlados, compostos de dados de fala semiespontânea de laboratório, dados visuais e dados audiovisuais, produzidos por quatro informantes falantes da variedade carioca. Investigou-se a realização prosódica do vocativo segundo a pauta acentual e número de sílabas do vocábulo e sua manifestação em diferentes estilos (“não marcado”, “cantarolado”, “deslocado” – corpus 1), sua posição na frase (inicial, medial e final – corpus 2), a influência de fatores sociopragmáticos e situacionais (respectivamente hierarquia entre os falantes e ambiente; e insistência e distância – corpus 3), bem como a relevância do tipo de ato de fala que se seguia ao vocativo (investigada nas modalidades áudio (A), vídeo (V) e áudio combinado com vídeo (AV) – corpus 4).

Foi observado o comportamento dos parâmetros frequência fundamental, intensidade e duração, relacionando-os com o nível perceptivo através de testes com grupos de ouvintes, para avaliar a relevância dos padrões detectados na análise acústica. Os resultados alcançados mostram que, de maneira geral, o vocativo tem, basicamente, um contorno ascendente- descendente em sua versão não marcada (informacional). As estratégias estilisticamente marcadas, a saber, a do vocativo “cantarolado” e a do “deslocado”, atuam modificando substancialmente o contorno não marcado. O padrão cantarolado se caracteriza, do ponto de vista melódico, por um canto tritonal entre a(s) pretônica(s), a tônica e a postônica, ou bitonal, se não houver sílaba pretônica; a postônica se realiza em um nível sustentado e alto, embora ligeiramente inferior (cerca de um intervalo musical de terça menor) ao da tônica, onde se situa o pico da F0. Tanto a intensidade quanto a duração desse contorno são maiores do que as do contorno não marcado, especialmente na sílaba postônica. Quando o vocativo é oxítono, há uma espécie de reduplicação da tônica, que prosodicamente passa a funcionar como duas sílabas, tônica e postônica. O padrão “deslocado” pode se aplicar aos nomes paroxítonos e proparoxítonos, que passam a se comportar prosodicamente como um oxítono (“Bruno” se torna “Brunô”). Esse deslocamento acentual se dá graças ao comportamento tanto da F0, quanto da intensidade e da duração (corpus 1).

Em relação ao posicionamento do vocativo na frase (corpus 2), viu-se que há um escalonamento dos parâmetros prosódicos, no sentido de haver, em posição inicial, uma maior proeminência melódica, de intensidade e mesmo de duração sobre o vocativo, uma saliência intermediária na posição medial, e menor na posição final, o que pode ser correlacionado à linha de declinação da F0 e ao decrescendo de intensidade, motivados pela queda da pressão subglótica ao longo do enunciado. Em relação à duração, a mesma gradação se observa, salvo quanto à posição final, por conta do fenômeno “alongamento final”. De maneira geral, o contraste é mais nítido entre as marcas da posição inicial e as das outras duas posições, o que se reflete nos testes perceptivos e que parece apontar para a marcação de uma distinção entre a função interpelativa (na posição inicial) e a fática (nas demais posições) do vocativo.

Os fatores situacionais distância/insistência são marcados acusticamente, e bem identificados no plano perceptivo; há um esforço maior na produção, que não altera, entretanto, a forma do contorno. Por outro lado, os fatores hierarquia entre os falantes e ambiente (casa ou trabalho) não interferiram na expressão dos vocativos (corpus 3).

Em relação ao tipo de ato de fala que se segue ao vocativo, embora a configuração geral do padrão melódico no vocativo seja basicamente a mesma (subida sobre a tônica e queda na postônica), a análise acústica permitiu distinguir, com base na amplitude das variações melódicas (span) e no seu registro (mais agudo ou mais grave), quatro variantes do padrão básico, diferenciando os seus contornos segundo se seguiam os atos de (i) alerta, (ii) súplica, (iii) pergunta e pedido e (iv) ordem, asserção e desafio. Os resultados dos testes perceptivos mostraram que os canais auditivo, visual e audiovisual simultaneamente tiveram uma contribuição similar para a identificação do ato de fala, ou seja, eles trazem, grosso modo, as mesmas informações sem haver propriamente uma integração entre eles. Apenas no vocativo ligado ao ato de pergunta o concurso da informação visual teve um peso expressivo em sua identificação.

Palavras-chave: Vocativo. Prosódia. Entoação. Português do Brasil.

Abstract:

The present work aimed to investigate the vocative prosodic patterns in Brazilian Portuguese (BP), using a phonetic approach. To describe the prosodic behavior of vocatives, empirical research was conducted, based on the analysis of 4 controlled experimental corpora, composed by a semi-spontaneous lab speech database, with visual and audiovisual data produced by 4 speakers from the carioca variety. The vocative prosodic performance was investigated following patterns of lexical stress and number of syllables (corpus 1), its position in the utterance (beginning, middle, and end) (corpus 2), the influence of sociopragmatic (hierarchy between the speakers and environment) and situational factors (insistence and distance) (corpus 3), as well as the relevance of the speech act type that followed the vocative in the sentence (for audio (A), video (V) and audiovisual (AV) modalities) (corpus 4).

The parameters fundamental frequency, intensity and duration were observed, relating them to the perceptual level through listening tests, to assess the relevance of patterns detected in the acoustic analysis. The results show that, in general, the vocative has basically a rising-falling, in its unmarked (informational) version. The stylistically marked strategies, the so-called “vocative chant” and “stress-shifted”, substantially modify the unmarked contour. The vocative chant is characterized, from a melodic point of view, by a tritonal pattern between the pretonic(s), the tonic and the posttonic syllables – or bitonal if there is no pretonic syllable; the posttonic is performed at a sustained and high level, although lower (about a minor third) than the tonic, where the F0 peak is to be found. Both intensity and duration are greater than on the unmarked contour, especially for the posttonic syllable. For oxytonic vocatives, a reduplication of the tonic is observed, functioning prosodically as two syllables, tonic and posttonic. The "stress-shifted" pattern can be applied to paroxytonic and proparoxytonic names, which then behave prosodically as oxytonic (“Bruno” becomes “Brunô”). This stress shifted is linked to the behavior of F0, intensity and duration (corpus 1).

The position of the vocative in the sentence (corpus 2) showed a gradual decrease of its prosodic parameters as it moves along sentence. As a call function, it showed the greatest prominence in terms of melody, intensity and duration of the tonic. At a medial position, it showed an intermediate F0 peak, and the lower one at the end of the sentence, which can be related to the F0 declination line and decreasing intensity motivated by a subglottic pressure decrease throughout the utterance. Regarding duration, the same gradation was observed, except for the final position, due to the final lengthening on the posttonic syllable. The contrast was clearer between the call function position and the two latter ones; the perceptual evaluation points to a binary distinction between the call function (for initial positions) and the phatic function (at other positions) of vocatives.

Situational factors “distance/insistence” were marked acoustically, and well identified perceptually; there is a greater vocal effort at the production stage, which preserves the overall pattern. On the other hand, the factor hierarchy between speakers and environment (home or work) did not interfere in the expression of vocatives (corpus 3).

For the speech acts following the vocative, although the general melodic pattern on the vocative is basically untouched (rise on the tonic and fall on the posttonic), the acoustic analysis allowed distinguishing four variants of the basic pattern, based on the melodic span and register (higher or lower), that oppose four categories of acts: (i) alert, (ii) supplication, (iii) question and request and (iv) order, assertion, and challenge.

Perceptual evaluations showed that the auditory, visual, and audiovisual conditions had a similar contribution to the speech act identification, that is, they bring roughly the same information, without demonstrating a gain linked to their fusion. Only for question did the visual information bring a significant information over the audio one.

Keywords: Vocative. Prosody. Intonation. Brazilian Portuguese.

Coordenação

Coordenadora: Profa. Dra. Maria Eugenia Lammoglia

Vice-Coordenadora: Profa. Dra. Eliete Figueira Batista da Silveira 

Secretário: Renato Martins e Silva
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