Discente: Cristina Márcia Monteiro de Lima Corrêa

Título da tese: Concordância verbal de terceira pessoa do plural em comunidade rurais e urbanas do estado do Rio de Janeiro: avaliação e produção

Orientador(a): Silvia Rodrigues Vieira Coorientador(a): Livia Oushiro

Ano da defesa: 2019

Páginas: 183

Resumo:

Esta pesquisa ocupa-se da variação da concordância verbal de terceira pessoa do plural em comunidades rurais e urbanas do estado do Rio de Janeiro do ponto de vista da produção, da percepção e da avaliação das variantes: presença e ausência de marca de número plural no verbo (eles falam, eles fala). À luz da Teoria da Variação e da Mudança linguísticas, especialmente no que toca ao problema dos fatores condicionantes e ao problema da avaliação, buscou-se descrever e explicar como a percepção e a avaliação subjetiva se relacionam com a referida variação e verificar, em especial, se populações diferenciadas pelo grau de urbanização – Cachoeiras de Macacu e Guapimirim representando a zona rural, Rio de Janeiro e Nova Iguaçu representando a urbana – produzem, percebem e avaliam diferentemente as variantes estudadas. Para o estudo de produção, fundamentado sobretudo em Labov (1972, 1994) e Weinreich, Labov & Herzog (2006 [1968]), procedeu-se à realização de entrevistas para montar um corpus com dados de fala semiespontânea, estratificado segundo escolaridade, faixa etária, gênero/sexo e localidade dos participantes (total de 898 dados, 111 participantes). Realizou-se tratamento quantitativo das ocorrências, com auxílio da plataforma R (modelo de regressão logística de efeitos mistos), de modo a observar, na comparação entre as localidades, que as tendências de atuação de variáveis previsoras nas duas localidades são semelhantes (das variáveis controladas, influenciam a variação na concordância verbal a Escolaridade, a Relação entre sujeito e verbo e a Saliência fônica); ao mesmo tempo, a análise em tempo aparente sugere variação estável na zona urbana e mudança em progresso na zona rural na direção de maior aplicação da regra de concordância. Para análise da avaliação (inconsciente e consciente), foram realizados dois experimentos, baseados principalmente nas técnicas estabelecidas em Lambert et alii (1960) e Labov (2006 [1966]). No primeiro, de percepção, em que os participantes não tinham conhecimento de qual fenômeno se encontrava em estudo, foram criados dois conjuntos de sentenças, utilizando a técnica de estímulos pareados, de modo que quem ouvisse uma frase com a variante padrão, não ouviria a correspondente com a não-padrão. Para cada sentença ouvida, os participantes assinalaram, dentre cinco opções relacionadas ao campo profissional (Diretora, Coordenadora, Inspetora, Merendeira ou Faxineira), quem poderia falar de determinada maneira. Testes de qui-quadrado mostraram, de modo geral, que os participantes da zona rural, sobretudo em contextos linguísticos em que a variante não-padrão não tende a ocorrer, correlacionaram eventualmente a variante padrão a Diretora ou Inspetora e a variante não-padrão a Merendeira. Aqueles da zona urbana, por outro lado, não demostraram uma diferenciação sociolinguística das variantes em termos de profissões. Na zona rural, foi demonstrada uma estratificação social que, a partir de associação entre as variantes e profissões, sugerem principalmente uma avaliação negativa da ausência de marca de concordância. No segundo experimento, de avaliação, em que os participantes foram informados se tratar do fenômeno da concordância, foram criados cinco estímulos sem marca de concordância verbal, com diferentes graus de saliência, tanto pela relação sujeito-verbo, quanto pela diferença fônica entre as formas com e sem concordância. Para cada estímulo ouvido, os participantes deveriam atribuir uma nota, de 1 (“nada”) a 6 (“muito”), para diferentes aspectos (jovem, estudada, endinheirada, inteligente, honesta e gente boa), indicando, assim, o perfil de pessoa que eles acreditam que normalmente falaria de determinado modo. Complementando os resultados do Experimento 1, com auxílio novamente da plataforma R (modelo de regressão linear com participantes como efeito aleatório), o Experimento 2 confirmou a avaliação negativa da variante não-padrão do ponto de vista intelectual e socioeconômico, uma vez que, quanto mais saliente a falta de concordância, associaram a variante a pessoas muito jovens, pouco estudadas, pouco endinheiradas, pouco inteligentes. Assim sendo, observou-se um padrão semelhante nas duas localidades acerca do que condiciona a realização das variantes e dos valores de prestígio de cada uma. A observação de mudança em direção à variante padrão na zona rural e de variação estável na zona urbana vai ao encontro da hipótese de Lucchesi (2015). Entretanto, diferentemente do esperado e da hipótese de Lucchesi (2015), verificaram-se julgamentos mais negativos sobre a variante nãopadrão na zona rural em comparação com a zona urbana, principalmente entre falantes mais jovens e menos escolarizados, quando os participantes reagiram inconscientemente às variantes da concordância verbal (Experimento 1); em contraste, quando cientes do fenômenos sob análise (Experimento 2), as avaliações dos participantes na zona rural e na zona urbana não diferiram significativamente (exceto para a escala de inteligência). Esses resultados revelam que, mesmo em localidades menos urbanizadas, as avaliações negativas a respeito da variante não-padrão são também compartilhadas entre falantes com nível baixo e médio de escolaridade, indicando a difusão da ideologia da norma padrão em outros pontos do continuum rural-urbano.

Abstract:

This research discusses variation in third person plural subject-verb agreement in rural and urban communities in the state of Rio de Janeiro/Brazil from the perspective of production, perception, and conscious evaluations on its variants: presence and absence of explicit plural number marking (eles falam, eles fala ‘they speak’). Based on the Theory of Language Variation and Change, especially concerning the Constraints and the Evaluation Problems, we aimed to describe and explain how perception and subjective evaluations relate to the variable and, in particular, to investigate whether speakers living in areas with different degrees of urbanization – Cachoeiras de Macacu and Guapimirim as more rural areas, and Rio de Janeiro and Nova Iguaçu as more urban areas – differently produce, perceive and evaluate these variants. For the production study, based on Labov (1972, 1994) and Weinreich, Labov & Herzog (2006 [1968]), we collected sociolinguistic interviews with speakers stratified by their level of education, age, sex/gender, and city of residence (898 tokens, 111 participants). The quantitative analyses in mixed effects logistic regression models in R showed that the variable rules are quite similar in comparing the rural and urban areas (same effects of the predictor variables level of education, relation between subject and verb, and phonic salience); further, the apparent time analysis suggests stable variation in the urban area and change towards the standard variant in the rural area. For the perception and evaluation analyses, we designed two experiments based on Lambert et al (1960) and Labov (2006 [1966]). In the perception experiment (Experiment 1), in which participants were not aware of the linguistic phenomenon under study, we created two sets of audio stimuli based on the matched-guise technique and in such a manner that participants only listened to one stimulus of each pair (either the standard or nonstandard variant) for a given sentence. For each stimulus, participants chose a profession (School Director, Coordinator, Inspector, Lunch Lady, Cleaning Woman) they imagined could have spoken in such a way. Chi-square tests showed, in general, that participants in rural areas, especially in contexts in which the nonstandard variant tends not to occur, attribute the standard variant to Director and Inspector, and the nonstandard variant to Lunch Lady. Those in the urban areas, on the other hand, did not exhibit a sociolinguistic differentiation between the variants in terms of speakers’ profession. In the rural area, we observe a social stratification that, in associating variants and professions, suggest a negative social evaluation of the nonstandard variant. In the second experiment, in which participants were explicitly told about subject-verb agreement, they listened to five stimuli, all in the nonstandard form, with different degrees of salience in regard to subject-verb relation and phonic salience. For each stimulus, participants were required to judge different personal aspects of the speaker (how young, educated, rich, intelligent, honest, good people they sound) on scales from 1 (‘not at all’) to 6 (‘very’). Thus, they indicated the type of person they believed would normally talk in that manner. Experiment 2 confirmed the negative evaluation of the nonstandard variant regarding speakers’ intelligence and socioeconomic status, because more salient stimuli were significantly more associated with young, less educated, not rich and unintelligent speakers. Thus we observed a similar pattern in both rural and urban areas regarding the social and linguistic constraints on the realization of the standard and nonstandard variants of subject-verb agreement. The observation of change in progress towards the standard variant in the rural area and stable variation in the urban area is in accord with Lucchesi’s (2015) hypothesis. However, differently from expected and from Lucchesi’s (2015) prediction, we observed more negative judgments on the nonstandard variant in the rural area in comparison with the urban area, especially among younger and less educated speakers, when participants unconsciously reacted to the stimuli (Experiment 1); in contrast, when aware of the phenomenon under study (Experiment 2), evaluations of rural and urban participants did not differ significantly (except for the intelligence scale). These results show that, even in less urbanized areas, speakers of lower and middle levels of education also share negative evaluations on the nonstandard variant, which indicates the spread of the standard language ideology to other points of the rural-urban continuum.

Coordenação

Coordenadora: Profa. Dra. Maria Eugenia Lammoglia

Vice-Coordenadora: Profa. Dra. Eliete Figueira Batista da Silveira 

Secretário: Renato Martins e Silva
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