Útlima atualização 07/03/2017

 

Nesse período foram defendidas 25 dissertações.

Ana Maria Vasconcelos Martins de Castro

Título: Pedro e Paula: um mergulho no "plasma fértil" da escrita em abismo de Helder Macedo

Orientadora: Teresa Cristina Cerdeira da Silva Páginas: 96



Ler o romance Pedro e Paula de Helder Macedo é reconhecer na sua principal personagem feminina o centro em torno do qual gravitam os demais personagens. Corpo amoroso e solar, Paula é a personagem de eleição do narrador-autor que, assumidamente parcial, estabelece com ela uma ligação afetiva e quase – ousaríamos desde já anunciar – erótica, de tal modo que também sinuosamente o leitor se vê mergulhado no terreno dos afetos e da sensorialidade. Em torno de Paula se organiza a escrita do romance e também a leitura aqui proposta. Esta dissertação, que pretende percorrer os desdobramentos de uma escrita em abismo do autor Helder Macedo, trabalhará sobre as articulações intertextuais que a composição ficcional desta personagem evidencia, ao fazer-se ela própria um mosaico de referências culturais, composta que é de pedaços de outros discursos, de outros corpos, tal um “plasma fértil”, para usar a metáfora do seu autor. Ilsa, de Casablanca, Maria Eduarda, de Eça de Queirós, Capitu, de Machado de Assis, serão apenas algumas dessas referências nas relações triádicas da trama ficcional de Pedro e Paula. Linguagem erotizada, aqui também se confundem corpo e discurso, ambos desejosos e desejantes, porque inscritos naquilo a que se pode chamar de aventura prazerosa da literatura.

 

Bruno Santoro da Silva

Título:A Poesia da Ironia e a Política do Riso: humores e rumores de Brecht e(m) Mia Couto

Orientadora: Maria Teresa Salgado Páginas:96



Este trabalho estuda a utilização do humor e da ironia como um dos recursos na construção das personagens. Em seu teatro épico, Brecht opta várias vezes por elaborar personagens ricas em humor e ironia, como em sua Ópera dos Três Vinténs – assim intitulada por se poder encená-la com apenas três vinténs –, na qual há um empresário dono de uma tropa de mendigos, devidamente registrados e com direitos trabalhistas assistidos, e um gângster, bígamo, procurado por toda a polícia britânica, que será elevado ao posto de Capitão pela própria rainha da Inglaterra. A plateia não é convidada a se reconhecer com os tipos em cena, mas, sim, a refletir sobre as situações em que se encontram as personagens. Reflexão também é o que propõe Mia Couto em seu romance O Último voo do Flamingo. Na cidade fictícia de Tizangara, em Moçambique, os soldados, enviados em missão de paz pela ONU, após a guerra civil, explodem, restando apenas o capacete azul e o falo dos mesmos. O inusitado órgão “sobrevivente” é o condutor para o riso, num romance em que o mote é a morte, velada, por sua vez, por uma ironia intensa. A ironia é a ‘terceira margem’ na qual Mia Couto e Brecht desembarcam e empregam o humor social para lembrar que as mudanças são necessárias. Reconhecer as mazelas e rir das mesmas já indicaria um caminho viável para a transformação.

 

Camila Duarte de Souza

Título: Eu te amo, eu lhe adoro, eu quero você:a variação das formas de acusativo de 2ª pessoa em cartas pessoais (1880-1980)

Orientadora: Célia Regina dos Santos Lopes Páginas: 156



O presente trabalho orienta-se para o estudo da variação das formas do complemento verbal acusativo de 2ª pessoa do singular no período de um século: 1880 a 1980. Na perspectiva tradicional de “uniformidade de tratamento”, o pronome acusativo original de 2ª pessoa seria apenas o clítico te, no entanto, outras estratégias também são possíveis no português brasileiro, como o pronome você, os clíticos lhe e o/a e, até mesmo, o objeto nulo Ø. Dessa maneira, levantamos todas as formas variantes do complemento em questão, com o objetivo de investigar os fatores de natureza linguística e extralinguística que estariam influenciando no uso das diferentes estratégias acusativas. Para tanto, utilizamos um corpus constituído por 521 cartas pessoais escritas no referido período e trocadas por indivíduos oriundos do Rio de Janeiro. Como aparato teórico-metodológico, utilizamos a Sociolinguística histórica (ROMAINE, 1982; CONDE SILVESTRE, 2007; HERNÀNDEX-CAMPOY & CONDE SILVESTRE, 2012), para o tratamento dos dados históricos. Em síntese, esta dissertação constatou que, dentre todas as formas acusativas de 2ª pessoa do singular, o clítico te foi o mais empregado em todos os subsistemas tratamentais de sujeito (tu, você e tu~você) e ao longo de todo o século, revelando, assim, que a função acusativa se mostra como um contexto de resistência à inserção da forma gramaticalizada você. Ainda observamos que os clíticos de 3ª pessoa o/a foram a segunda estratégia mais utilizada e que o você-acusativo começou a surgir no 2º período (1906-1930).

 

Carlos Benites de Azevedo

Título: Vozes e saberes da cultura popular em histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas: 182



O presente trabalho estuda as vozes do universo popular que ecoam nos contos do livro que originalmente recebeu o título de Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, publicado inicialmente em 1944 e que em 1962 passou a ter incorporado a ele duas outras obras do autor, Pequena história da República e Terra dos meninos pelados, sendo denominado então de Alexandre e outros heróis. Para efetuar essa análise, parte-se do estudo histórico das formas de cultura popular, com especial atenção à nordestina, por se tratar da região que serviu como pano de fundo para os contos estudados. Na análise de Histórias de Alexandre, enfocamos inicialmente seu caráter popular, que aparece não só nas próprias histórias, com características do folclore nordestino, mas também no formato como elas foram contadas, em seus personagens, que são autênticos representantes da cultura popular nordestina, e em todo universo panorâmico que o envolve. Também analisamos as particularidades ligadas a sua comicidade, com um estudo de seus personagens, da questão da narrativa e da linguagem utilizada. Nessa análise, examinamos o imaginário popular na voz do contador com uma linguagem imaginativa e como se dá a recepção dos ouvintes com os possíveis dissensos na questão da verossimilhança das histórias. Demos também especial atenção ao discurso dos personagens, que possuem pleno domínio do vocabulário, fato percebido em outras obras do autor. Usamos como aporte para essa discussão algumas obras como “O narrador”, de Walter Benjamin, Literatura infantil, de Nelly Novaes Coelho, Literatura infantil brasileira – história e histórias, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, Comicidade e riso, de V. Propp, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, de Bakhtin, O conto brasileiro contemporâneo, de Alfredo Bosi, Céu e inferno, de Alfredo Bosi, Estruturas, de Rui Mourão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, de Fernando Alves Cristóvão e Ficção e confissão, de Antonio Candido.

 

Carlos Eduardo Nunes Garcia

Título: As construções de topicalização e de deslocamento à esquerda na fala de brasileiros e portugueses

Orientadora: Mônica Tavares Orsini Páginas: 128



Este trabalho investiga as estratégias de topicalização e de deslocamento à esquerda na fala de brasileiros e portugueses. Topicalização e deslocamento à esquerda são estratégias de construção de tópico marcado em que o tópico – um constituinte externo, à esquerda da sentença – estabelece correferencialidade com um elemento no comentário. Na topicalização, exemplificada em (1) “[esta história]i você conta ___i lá dentro”, o tópico é retomado por uma categoria vazia; no deslocamento à esquerda, exemplificado em (2) “[a moça que trabalha lá em casa]i elai é de Queimados, né?”, há vinculação do tópico a um pronome ou a um constituinte de igual valor. A pesquisa, fundamentada em estudos anteriores (cf. VASCO, 1999 e 2006; ORSINI & VASCO, 2007; PAULA, 2012), tem como aporte teórico a associação do modelo de estudo da mudança descrito por Weinreich, Labov e Herzog (1968) à Teoria de Princípios e Parâmetros (cf. CHOMSKY, 1981), que sustenta as hipóteses arroladas e a seleção dos grupos de fatores estruturais. Os dados foram coletados de 36 entrevistas que integram o acervo sonoro do Projeto Concordância, distribuídos por faixa-etária, gênero, grau de escolaridade e origem do informante. Objetiva-se, assim, (i) averiguar a frequência e o comportamento estrutural das referidas construções, numa perspectiva interlinguística e (ii) observar o grau de interferência do nível de letramento na frequência e em eventuais restrições impostas por cada sistema às construções de deslocamento à esquerda e de topicalização na gramática da fala de brasileiros e portugueses, visto que, segundo Duarte, Cyrino e Kato (2000), o PB passa por mudanças no que diz respeito à marcação dos Parâmetros do Sujeito Nulo e do Objeto Nulo, comportamento não observado na gramática da fala do PE. Estas diferenças paramétricas estão correlacionadas às ocorrências de topicalização e de deslocamento à esquerda em cada sistema. Os resultados, gerados a partir da variável grau de letramento, mostram que se, por um lado, o PB não possui restrições estruturais às ocorrências das construções estudadas, confirmando resultados de estudos anteriores sobre o tema, o PE as apresenta, uma evidência de que, no que tange à tipologia das línguas (cf. LI & THOMPSON, 1976), estes sistemas parecem se situar em pontos distintos deste continuum.

 

Carlos Palacios

Título:Ficção, realismo e verdade: caminhos da literatura brasileira no século XXI

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas:80



O trabalho busca discutir as relações que a literatura brasileira do século XXI estabelece com o tema da verdade e do realismo. Para isso, parte de uma análise comparativa entre dois romances que seguem caminhos opostos: Eles Eram Muitos Cavalos (2001), de Luiz Ruffato, o qual se caracteriza como uma obra de caráter mais realista e compromissada com uma verdade social; e Menino Oculto (2005), de Godofredo de Oliveira Neto, que, tendo o falso como elemento articulador de sua narrativa, possui uma relação mais questionadora com o real e a verdade. Após essa etapa, o estudo se debruça sobre o romance Barco a Seco (2001), de Rubens Figueiredo, que se constitui justamente a partir da tensão entre esses diferentes caminhos da ficção literária: a busca pelo real, pelo verdadeiro; e o desejo de criação, de transformação.

 

Carolina Salgado Lacerda Medeiros

Título:Ter/haver + particípio passado: um caso de mudança no português arcaico

Orientadora: Sílvia Regina de Oliveira Cavalcante Páginas:157



O presente trabalho apresenta um estudo diacrônico acerca das estruturas compostas formadas com ter e haver + particípio passado em Português. O estudo investiga como e em que contextos tais estruturas passaram de construções transitivas-predicativas a construções de tempo composto perfectivo, tratando a mudança de ter e haver de verbos plenos a auxiliares como um caso de gramaticalização, com base no quadro de Roberts & Roussou (2003). O interesse pelo estudo se deve ao fato de existir, em Português Arcaico (PA), dois tipos de construções com particípio: (1) construções transitivas-predicativas formadas por ter e haver, que funcionam como verbos plenos, mais um PTP que se comporta como um adjetivo, concordando em gênero e número com o complemento direto de ter/haver, que, após um processo de mudança, dão origem à (2) construções de tempo composto perfectivo formadas por ter e haver, que funcionam como auxiliares, mais um PTP verbal. Com o intuito de investigar a formação deste segundo tipo de construção, neste trabalho procuramos identificar os contextos que levaram à mudança de ter/haver de verbos plenos à auxiliares, descrevendo o processo de gramaticalização pelo qual passaram, bem como descrever os contextos linguísticos que atuaram na passagem do PTP de adjetivo a verbo. A partir de textos portugueses dos séculos 13 ao 16 e de uma perspectiva teórica formal sobre o processo de gramaticalização (ROBERTS & ROUSSOU 2003), esta Dissertação mostra que o processo de mudança que culminou na emergência dos tempos compostos em Português envolve um processo de simplificação estrutural. Trabalhamos com a hipótese de que as construções de ter/haver + PTP sofrem a perda de uma operação de movimento sintático, a partir do que são reanalisadas como construções de tempo composto. A partir disto, ter e haver são gramaticalizados em auxiliares e o PTP é reanalisado como um verbo. Os resultados sugerem, com base na análise de elementos morfossintáticos tais como a presença ou ausência de marcas flexionais de concordância entre o PTP e o complemento e a fixação da ordem, que tal mudança tenha ocorrido já no século 13.

 

Darville Lizis Souza Moreth

Título:Tragédia no sertão: os retirantes e a seca n'O Quinze, de Rachel de Queiroz

Orientador: Adauri Silva Bastos Páginas:213



Na década de 1930, a literatura brasileira intensificou a perspectivação das mazelas nacionais. Sobretudo no Nordeste, muitos escritores primaram por criar ficções não idealizadas do país, nas quais a miséria se destacou como tema e o pobre cresceu como personagem. Entendemos que O Quinze, de Rachel de Queiroz (1930), foi o primeiro romance em que os elementos essenciais do chamado romance nordestino apareceram verdadeiramente. Na dita década, os nordestinos invadiram a literatura nacional, legando-lhe uma maneira brusca e ao mesmo tempo sensível de tratar de temas delicados e indesejados como fome, seca e miséria. Em nossa dissertação, analisaremos a narrativa de estreia da autora cearense como constructo a um só tempo formal e político, resultante do trabalho com a linguagem e da atenção às dimensões históricas da realidade em que se situa. Assim, poderemos articular o esquadrinhamento do texto com uma visão mais ampla do processo de emergência e afirmação do chamado “romance nordestino de 30”. Se por um lado os nordestinos retirantes migraram em massa para o Sul do país, por outro sua história e sua literatura nos marcariam para sempre.

 

Fernanda Villares Vianna Barreto

Título:A concordância verbal de 3ª pessoa do plural no português europeu

Orientadora: Silvia Rodrigues Vieira Páginas:125



O objetivo do presente trabalho é descrever os padrões de concordância verbal de 3ª pessoa do plural do Português Europeu, a fim de verificar se a regra atuante é de natureza categórica, semicategórica ou variável (cf. LABOV, 2003), levando-se em consideração entrevistas orais realizadas com informantes das seguintes localidades de Portugal: Oeiras, Cacém e Funchal.
O corpus, disponibilizado pelo Projeto Padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias do Português (ALFAL 21), conta com 18 entrevistas de cada uma das localidades, organizadas segundo sexo, escolaridade e faixa etária de cada informante, além de uma amostra complementar formada por 12 entrevistas. O trabalho conta com o aporte da Teoria da Variação e Mudança (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968; LABOV, 1972, 1994, 2001, 2003), para determinar não só o estatuto da regra, mas também os contextos envolvidos na realização ou não da marca de pluralidade. Para o tratamento estatístico dos dados, utilizou-se o pacote de programas Goldvarb-X. Realizou-se ainda, em uma subamostra com 9 informantes de Oeiras e 9 informantes de Funchal, a descrição fonética das terminações dos verbos de 3ª pessoa do plural com baixa saliência fônica, para testar os contextos em que ocorre perda da marca de concordância.
Considerando a totalidade dos dados, obteve-se o resultado de 2,2% de não marcação de plural, o que indica que o fenômeno da concordância verbal no PE se configura como uma regra semicategórica. Quantitativa e qualitativamente, os dados de não concordância no Português Europeu – de praticamente todos os estratos sociais controlados – são muito particulares e limitam-se a contextos muito específicos, preferencialmente com sujeitos pospostos, com referentes inanimados, representados na oração pelo relativo “que”, com verbos de baixa saliência fônica, inacusativos ou copulativos, e, por vezes, influenciados pelo contexto fonético seguinte, iniciado por som vocálico ou nasal.

 

Filipe Bitencourt Manzoni

Título:Quatro poetas quatro cidades: Adriano Espínola, Arnaldo Antunes, Caio Meira e Nicolas Behr

Orientador: Eucanaã Ferraz Páginas:117



Nosso trabalho se propõe a mapear as imagens da cidade na poesia contemporânea brasileira a partir de um recorte de quatro poetas: Adriano Espínola, Arnaldo Antunes, Caio Meira e Nicolas Behr. Buscamos um mapeamento imagético e formal, tentando mostrar algumas das estratégias e traços recorrentes na abordagem da cidade, bem como as implicações das priorizações do urbano empreendidas por cada autor. A escolha do corpus se pauta pela grande possibilidade de contrastes observáveis entre as obras dos autores, tomados sempre em uma estrutura dialogal e comparativa sob a qual percorremos questões que passam pelo urbanismo, pelas atualizações feitas à concepção de cidade, pelas renegociações empreendidas entre o sujeito e o urbano e pela filosofia da linguagem, na medida em que a cidade pouco a pouco torna-se indistinta de uma corrente linguística urbana.

 

Gabriel Ferreira de Andrade

Título:No palco...ruína em família

Orientador: Anélia Montechiari Pietrani Páginas:174



A família tradicional é composta por pai, mãe e filhos que se encontram em um laço de afetividade constituído a partir do encontro nupcial entre os cônjuges. Sobre essa instituição, recaem os preceitos éticos que devem ser fundamentados na educação do indivíduo que, no seio do lar, é submetido desde o ventre materno à legislação moral, formadora de um homem íntegro em sociedade e respeitado em sua digna moralidade. A associação desses princípios à concepção de família se constitui através dos dogmas religiosos, que consideram família um sistema sagrado. Diante dessa concepção tradicional e sacra, Nelson Rodrigues encena, em suas peças, as ruínas deflagradas nas relações sem afeto desses “entes queridos”. Acerca disso, suas produções são representações teatrais em que são desveladas as máscaras morais através de personagens em crise com seus conflitos interno e externo. São figuras cênicas multifacetadas em suas representatividades ambivalentes de um teatro, cuja fatalidade do trágico e a irreverência do cômico atribuem às peças de Nelson Rodrigues um caráter tragicômico. Esse caráter é manifestado no duplo contraditório de uma trama cambiante entre o drama da falência de famílias rasuradas em suas intimidades conturbadas pela miséria de personalidades cênicas desnorteadas entre a intensidade do amor e o mal-estar da irritação. A tragicomédia no teatro de Nelson Rodrigues é revelada na exacerbação das marcas trágicas, principalmente, por meio de seu teatro desagradável, no qual o dramaturgo põe em cena o caos e o desespero de indivíduos que habitam o mesmo ambiente, mas não se suportam em convivência. Na desmesura de suas ações cênicas, alcançam as personagens de Nelson Rodrigues o nível do patético, ridículo e hilariante em tramas que tornam jocoso o homem de aparência sublime em estado de decadência, drama e piada no esvaecimento de famílias em ruínas. Assim sendo, tomaremos para análise dessa questão, as peças do teatro desagradável de Nelson Rodrigues, com especial destaque a Álbum de família (1945), Anjo negro (1946) e Doroteia (1949) e apoiando-nos nos estudos de Flora Sussekind, Ronaldo Lima Lins, Victor Hugo Adler Pereira, Ângela Leite Lopes, Sábato Magaldi e Ruy Castro.

 

José Augusto de Oliveira Pires

Título:O Estatuto Morfológico do formativo -dromo no Português Brasileiro

Orientador: Alexandre Victorio Gonçalves Páginas:108



O formativo -dromo é proveniente do grego e tem como significado “ação de correr, lugar para corrida, corrida” (HOUAISS, 2009). Na língua grega, o formativo em questão era um elemento composicional. No atual estágio da língua, sobretudo na variedade brasileira, a partícula -dromo vem sendo amplamente utilizada na formação de novas palavras; no entanto, as mesmas não remetem ao significado dicionarizado. Em decorrência disso, aliado ao fato de o formativo em questão não possuir uma descrição detalhada, apropriada e pormenorizada na língua, apesar de referenciado em estudos como Laroca (2005) e Gonçalves (2011), que também apontam para a natureza derivacional de -dromo, o presente trabalho tem por objetivo principal comprovar o estatuto sufixal de -ódromo. Por isso, ponderamos que as formações mais novas com o formativo em questão (a) possuem uma diferença no estatuto morfológico da partícula, que deixa de ser um elemento de composição para ser visto comoum elemento de derivação – uma mudança de radical para afixo e (b) passam a incorporar a vogal média baixa [Ɔ], sendo, pois, -ódromo e não mais -dromo. Além disso, como forma de obtermos uma descrição ainda mais satisfatória, basear-nos-emos nos trabalhos propostos por Gonçalves (2011a) e Gonçalves 11 & Andrade (2012), assim como na Teoria da Morfologia Construcional de Booij (2005, 2010), visando a descrever e a representar o formativo -ódromo por intermédio de esquemas construcionais propostos pelo autor e, posteriormente, adaptados para o português em Gonçalves & Almeida (2013)

 

Julia Kubrusly Bornstein

Título:Floriano Cambará: narração e ruptura em O tempo e o vento de Erico Verissimo

Orientadora: Maria da Glória Bordini Páginas:122



Floriano Cambará, personagem e narrador de O tempo e o vento de Erico Verissimo, constitui peça principal de análise nesta dissertação, a arquitetura da trilogia, bem como o amadurecimento do personagem como escritor serão profundamente analisados. Embora o foco seja dado principalmente ao volume final do romance, O arquipélago, não deixaremos de lado as duas primeiras partes, O continente e O retrato, imprescindíveis para a compreensão e completude da obra. O fato de Floriano Cambará, alter ego confesso de Erico Verissimo, ser o narrador da obra que estamos lendo, é algo que descobrimos apenas ao final da narrativa, papel que se justifica devido a sua posição única no romance. Personagem inteiramente desencaixado, ele busca encontrar seu lugar na engrenagem de que faz parte, Santa Fé e o Rio Grande do Sul e, por este motivo, percorre um longo e árduo caminho no interior de si mesmo. Tencionamos demonstrar que a escrita do romance O tempo e o vento contribui para a evolução do personagem, tanto como escritor, quanto como indivíduo. Analisaremos sua trajetória atentando, principalmente, para os conflitos internos e externos, como a auto aceitação e a relação com seu pai, além do modo como enxerga a historiografia clássica, desmitificando o passado e, assim, iluminando e compreendendo o presente. O personagem coloca-se como crítico da realidade, dando voz a um novo ponto de vista que privilegia parte excluída da História. Pretendemos elucidar seu trabalho de escrita, o amadurecimento do personagem e o modo como lida com a perspectiva histórica existente.

 

Juliana Oliveira dos Santos

Título:O enunciador e o enunciatário na revista Megazine: uma abordagem semiótica

Orientadora: Regina Souza Gomes Páginas:208



O presente trabalho procura identificar o perfil do jovem de hoje retratado no discurso da revista Megazine, utilizando-se da Teoria Semiótica de linha francesa. Para tanto, são analisadas as relações estabelecidas entre enunciador e enunciatário e as estratégias discursivas usadas para direcionar a interpretação, bem como procedimentos semânticos como a tematização e a figurativização e sua implicação na construção de efeitos de sentidodiscursivos e na identidade do pathos da revista. Também são analisadas as modulações afetivas presentes no discurso e decorrentes das relações entre sujeitos e entre sujeitos e objetos, mostrando o que mobiliza esse sujeito que sente e como o faz. Os procedimentos acima elencados permitem identificar determinada imagem do jovem retratado na revista, delineando seu perfil e contribuindo para criar e reforçar certas visões ideológicas de como é o comportamento desse público nos dias de hoje, bem como suas principais atividades e interesses.

 

Karine Oliveira Bastos

Título:Trabalhando fora, estudando e cuidando da família: o desregramento de cláusulas hipocráticas circunstanciais e seu status no ensino

Orientadoras: Mônica Maria Rio Nobre e Violeta Virginia Rodriges Páginas:157



O presente trabalho pretende investigar, com base nos pressupostos da teoria funcionalista de Halliday (1985), Matthiessen e Thompson (1988) e Decat (1993, 1999, 2001a, 2001b, 2004, 2008a, 2008b, 2009a, 2009b, 2010, 2011), o uso da hipotaxe circunstancial no discurso escrito do português produzido no âmbito escolar, especificamente, em turmas de Ensino Médio da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O foco do estudo é voltado para as cláusulas hipotáticas circunstanciais denominadas desgarradas. Instituído por Decat (1999), o rótulo desgarramento se refere a um fenômeno bastante frequente na língua cujo entendimento exige romper com uma visão estanque das categorias, tal como propõe o exemplo: “Parei no tempo, parecia que eu estava dormindo. Passando humilhação quando trabalhava na casa dos outros. Minha mãe sempre disse para eu voltar a estudar, trabalhar de carteira assinada e me formar”. Exemplos como este não encontram, no tratamento tradicional, uma análise que dê conta do seu real funcionamento nos discursos em que se inserem, justamente pelo fato de a Gramática Tradicional (GT) apresentar somente um enfoque formal, com base, na maioria das vezes, na língua escrita e no nível sentencial; somese a isso o fato de a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) não tratar de certas relações adverbiais – caso do exemplo em destaque. Assim, este estudo propõe uma caracterização um pouco mais ampla do desgarramento que envolve a hipotaxe circunstancial, investigando, para isso, o tipo de relação que emerge entre as cláusulas, bem como sua posição, sua forma e até mesmo a perspectiva discursiva em que estão inseridas. Em última instância, busca-se somar reflexões sobre as práticas de produção textual e análise linguística inseridas no ensino de língua materna. No decorrer da pesquisa, foram analisados 825 textos, dentre os quais foram encontradas 113 cláusulas hipotáticas circunstanciais denominadas desgarradas. Das relações que envolvem a combinação de cláusulas, a causalidade revelou-se a mais frequente. Verificamos, portanto, que a hipótese central desta pesquisa – relacionada à importância do desgarramento de cláusulas hipotáticas circunstanciais para o desenvolvimento da argumentação – foi alcançada.

 

Mariana Marques de Oliveira

Título:Carta e corpo ou a carta-corpo no romance Em nome da terra, de Vergílio Ferreira

Orientadora: Luci Ruas Pereira Páginas:105



Na fortuna crítica de Vergílio Ferreira observa-se unissonamente a afirmação de que a linguagem é tema de obsessiva reflexão do autor, atravessando sua ficção, sua obra ensaística e os seus diários. Partindo dessa premissa, o presente trabalho tem como objetivo investigar a reflexão sobre a linguagem no que diz respeito ao lugar da escrita na obra ficcional Em nome da terra (1990), de Vergílio Ferreira, sobretudo a partir de três aspectos: a escrita da memória, a erótica e a metaficcional. Para a sua leitura, o percurso do estudo divide-se em três capítulos: no primeiro, dedicado à escrita a partir da memória, analisamos por que e como a escritura se torna questão primordial para o protagonista João, também escritor e narrador do romance. Em seguida, no segundo capítulo, que se refere ao discurso amoroso, estudamos de que modo a escrita epistolar – gênero essencialmente comunicativo que emerge neste romance com a sua impossibilidade comunicativa – pode ser mote para a construção de uma escrita erótica voltada para o missivista. Por fim ao se observar que a estrutura do romance problematiza o ato de escrever no momento de seu processo, investigamos o caráter metaficcional do romance, isto é, de que maneira o discurso amoroso e narcísico possibilita a reflexão sobre a escritura. Desse modo, é possível observar na obra de Vergílio Ferreira – autor muitas vezes limitadamente pesquisado sob o viés existencialista – que a reflexão de cunho existencial está envolvida na e pela linguagem.

 

Natália Rocha Oliveira Tomaz

Título:A formação do ethos popular do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Orientadora: Lúcia Helena Martins Gouvêa Páginas:209



Esta pesquisa tem por objetivo analisar de que forma o ethos do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva era construído em seus discursos proferidos durante os dois mandatos de governo – 2002 a 2010. Para tanto, contará, primordialmente, com as contribuições da Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, com os apontamentos de Dominique Maingueneau a respeito da cenografia e de sua importância para a enunciação, e com os estudos desenvolvidos por Ruth Amossy sobre as modalidades argumentativas. Privilegiou-se, neste trabalho, o discurso improvisado para que se pudesse verificar a existência de ethé oriundos da própria personalidade do ex-presidente, e não que fossem fruto do discurso produzido por uma equipe redatora. Uma verificação quantitativa e qualitativa das ocorrências desses ethé permitiu compreender os processos envolvidos na formação da imagem do ex-presidente.

 

Nilzelaine Silva dos Anjos

Título:Filhos de uma pátria híbrida nas linhas da ironia de João Melo

Orientadora: Maria Teresa Salgado Páginas:99



A presente dissertação tem como objetivo captar, na obra Filhos da Pátria, os aspectos do hibridismo cultural e da ironia na Angola recriada pelo escritor João Melo. É evidente a capacidade, desenvolvida pelos processos de hibridação, de formar novos valores culturais em uma sociedade. Entretanto, esses valores podem ser dúbios, questionáveis e instáveis, deixando espaços para variadas formas de ironia. Esse caráter irônico que emerge de um contexto híbrido é revelado através de fatores históricos, sociais e culturais inseridos nos contos de Melo. Investiga-se como a hibridação pode revelar facetas irônicas, através das divergências e dubiedades que o texto sinaliza ao mapear os cenários angolanos. Os contos em questão suscitam reflexões sobre a diversidade na formação da atual literatura de Angola. A variedade de práticas culturais, políticas e sociais, a mistura de gêneros textuais e a multiplicidade de personagens e espaços são observadas, como elementos que reforçam o caráter ambíguo e conflitante (por isso irônico), na formação da sociedade reinventada pela escrita desse autor angolano.

 

Pamela Maria do Rosário Mota

Título:Entre as "veias finas" da escrita: metáforas do sangue na poética de Paula Tavares

Orientadora: Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco Páginas:136



A palavra da poetisa Paula Tavares assinala, em Angola, o início de uma escrita transgressora que valoriza a mulher detentora de desejos, ao inserir, na lírica, o apelo erótico do corpo feminino, refletindo sobre o papel social da mulher angolana. Sua linguagem se aprofunda em questões sobre as tradições e os ciclos da vida e, para tanto, o texto da poetisa defende a desordem dos fatos ao trabalhar com o recurso da memória, em um movimento de trazer de volta, não para reescrever, mas tentar poeticamente reconstituir. A poética de Paula Tavares é configurada a partir do limite da linguagem, gerando violência no ato da escrita. A violência da qual estamos tratando é aquela capaz de questionar a realidade ou a própria criação artística. Essa violência poética também é usada para discorrer sobre a violência do trauma, remanescente das guerras em Angola. Poetizar de maneira precisa e cortante os estilhaços é uma maneira de transubstanciar o horror em sua constituição estética, tecendo afetos que ressignifiquem os traumas, de modo a refletir sobre os cacos deixados pelo pós-independência. Logo, a escrita de Paula Tavares provoca possibilidades de mudanças devido à insatisfação com o mundo presente, desalinhando-nos, provocando-nos afetos. Entendemos afeto como forças que estimulam a nossa reflexão, fazendo-nos sair de uma certa ordem. Nesta investigação sobre os afetos, um fato não poderia passar despercebido: a imagem recorrente do elemento sangue nos poemas da poetisa angolana. Nesta dissertação, propomos pesquisar em que medida as metáforas do sangue refletem sobre o feminino, as tradições, as cicatrizes da guerra e a própria constituição estética.

 

Pátrícia Affonso de Oliveira

Título:O Estatuto Morfológico dos formativos Eco- e Homo- no Português Brasileiro

Orientadora: Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco Páginas:107



Os elementos morfológicos eco- e homo- são oriundos do grego e significam, respectivamente, “casa, habitat” e “semelhante, igual a” (CUNHA, 2010; HOUAISS, 2009). Atualmente, os formativos eco- e homo- vêm sendo amplamente utilizados para formar novas palavras, mas não mais com o significado que encontramos no dicionário etimológico: eco- aparece associado aos significados de “ecológico” e “reciclagem”, típicos de palavras como „ecologia‟ e „ecológico‟, e homo-, ao significado de “gay”, numa clara referência à palavra „homossexual‟. Esses elementos morfológicos carecem de descrição minuciosa e apropriada, já que os poucos trabalhos que descrevem muito brevemente eco- e homo- se limitam a falar sobre sua etimologia e/ou a classificá-lo ora como radical (BECHARA 2004), ora como afixoide (OLIVEIRA & GONÇALVES, 2011), ora como pseudoprefixo (CUNHA & CINTRA, 2001). A falta de consenso entre os estudiosos sobre a que categoria pertencem esses elementos se dá justamente pelo fato de eco- e homo- apresentarem características tanto de radical quanto de afixo. Usamos a morfologia construcional de Booij (2005, 2010) para fazer a análise dos formativos eco- e homo- e também para averiguar o posicionamento dos nossos formativos ao longo do continuum derivação-composição proposto por Kastovsky (2009) e Gonçalves (2011a). Para essa última questão, serão utilizados, como parâmetros, os critérios empíricos apresentados em Gonçalves (2011a) e em Gonçalves & Andrade (2012).

 

Priscila Wandalsen Mendonça de Castro

Título:Entre a cruz e a cama: o erótico como encontro na poética de Murilo Mendes

Orientador: Sergio Martagão Gesteira Páginas:80



O presente trabalho aborda o erotismo na obra de Murilo Mendes e discute de que maneira esta questão é construída na imagem poética desse autor conciliador de contrários, tendo como corpus literário o livro Poesia em pânico publicado em 1937. Busca-se defender que Murilo Mendes, em oposição ao cristianismo descrito por Bataille, resgata, através do erotismo, o sentido original da palavra religião (do latim religare, religar), uma vez que não rejeita a impureza, mas dela se alimenta, de modo a compor uma poética em que as imagens de cama e a cruz se conciliem.

 

Sarah Pinto de Holanda

Título:Um caminho à liberdade: o legado de Pagu.

Orientadora: Elódia Carvalho de Formiga Xavier Páginas:144



A intensa trajetória de vida, paixão e engajamento político de Pagu a transformou numa espécie de mito. Apesar da popularidade que lhe foi conferida em virtude da vida atribulada que protagonizou, sendo produzidos alguns títulos que se dedicaram a sua biografia, a obra literária de Patrícia Galvão continua praticamente desconhecida. Sua vida multifacetada é refletida em sua produção artística. Pagu criou poemas ilustrados, escreveu romances, contos policiais e poesias; além de uma série de artigos e ensaios que estão espalhados pelos vários jornais nos quais colaborou por décadas. O presente trabalho busca percorrer a trajetória de sua vida-literatura, debruçando-se em seus textos mais reveladores até a publicação de Parque Industrial, obra aprofundada nesta dissertação. Nosso ponto de partida é a análise de diversos textos que desvendam sua intrigante biografia; são analisados depoimentos, reportagens e sua autobiografia intitulada Paixão Pagu. A seguir, nos debruçamos sobre a primeira obra literária de Patrícia, Álbum de Pagu: Vida, Paixão e Morte, uma pequena autobiografia ilustrada, de 1929. Um texto marcadamente antropofágico que reúne linguagem verbal e não-verbal em várias doses de ironia e sensualidade. O primeiro exercício politicamente engajado se dá com as contribuições para o jornal O Homem do povo, de 1931, no qual assina vários artigos e compõe charges, vinhetas e uma história em quadrinho. Em 1933, Pagu lança Parque Industrial, o primeiro romance proletário brasileiro. Observamos que a irreverência e audácia da escritora antropofágica permanecem nesta obra que é marcada por um forte engajamento político, pois denuncia os cancros da burguesia capitalista; e por uma profunda experimentação estética, ao se aproximar dos movimentos de vanguarda europeia. Tais predicados fazem do romance de Patrícia Galvão uma importante obra do Modernismo Brasileiro.

 

Thaís Seabra Leite

Título:O personagem como metáfora e a arquitetura imaginante de Autran Dourado

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza Páginas:131



A presente dissertação de mestrado consiste no estudo acerca do personagem em dois romances de Autran Dourado, Ópera dos Mortos e Os sinos da agonia. Para o escritor mineiro, o personagem é metáfora em ação, concepção que encontra afinidade nos estudos bachelardianos sobre a imaginação material e dinâmica. Verificamos, ainda, que o personagem é elaborado a partir de técnicas neobarrocas de artificialização e apresenta três configurações principais: metáfora do corpo, metáfora textual – o personagem como metáfora de outros personagens da mesma trama – e metáfora intertextual.

 

Thiago Laurentino de Oliveira

Título:Entre o linguístico e o social: Complementos Dativos de 2ª pessoa em Cartas Cariocas (1880-1980)

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza Páginas:131



A gramaticalização do pronome você desencadeou, no português brasileiro (PB) uma forte variação na representação da 2ª pessoa do singular, visto que o paradigma do antigo pronome tu não desapareceu. Essa variação na posição de sujeito tem sido amplamente estudada (cf. MACHADO, 2006; RUMEU, 2008, 2013), cabendo às investigações futuras analisar outras posições sintáticas da sentença. Nesta dissertação, investigamos as diferentes formas pelas quais o complemento dativo pode manifestar-se, em 2ª pessoa: através dos clíticos te e lhe, dos sintagmas preposicionados a ti, para ti, a você e para você, e ainda do objeto nulo (sem realização fonética). Chamamos de dativo o argumento interno dos verbos de dois ou três lugares com papel semântico de alvo ou fonte e substituível por lhe. Neste estudo, buscamos identificar fatores linguísticos e extralinguísticos que atuaram no (des)favorecimento de cada variante dativa durante a inserção do você no sistema do PB, por volta dos anos 1930 (cf. DUARTE, 1995). Além disso, descrevemos também a combinação do clítico te com o sujeito você em construções como “Você leu o livro que eu te dei?”. Tal combinação, interpretada tradicionalmente como “ruptura” da uniformidade de tratamento, é uma construção amplamente aceita e sem estigma social no PB atual (BRITO, 2001). O corpus constitui-se de 318 cartas particulares escritas por cariocas e fluminenses no período de um século (1880-1980). Como aparato teórico-metodológico, conciliamos os pressupostos da sociolinguística variacionista laboviana (WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968; LABOV, 1994) com a sociolinguística histórica (CONDE SILVESTRE, 2007; HERNÀNDEX-CAMPOY & CONDE SILVESTRE, 2012). Utilizamos o programa estatístico GOLDVARB-X como ferramenta para a análise quantitativa dos dados. Os resultados gerais deste estudo revelam que: o clítico te é a variante dativa mais recorrente na escrita carioca/fluminense do período analisado, independentemente do tratamento na posição de sujeito (você ou tu); o clítico lhe confere caráter de formalidade, marcando baixo grau de intimidade entre os interlocutores; as formas preposicionadas registram baixa frequência de uso, havendo a substituição das formas a ti e para ti por a você e para você ao longo do tempo; os subgêneros de carta particular, o núcleo social dos missivistas e o grau de domínio sobre os modelos de escrita são fatores que condicionam o uso das variantes.

 

Vivian Borges Paixão

Título:A prosódia das interrogativas totais na fala carioca: fala espontânea versus leitura

Orientadores: Dinah Callou e Dolors Font-Rotchés Páginas:141



O trabalho tem por objetivo analisar a prosódia das interrogativas totais – perguntas cuja estrutura assemelha-se à de declarativas, que podem ser respondidas com “sim” ou “não” –, comparando duas amostras de fala do Rio de Janeiro: uma de fala espontânea (FE) e uma de leitura (LE). O corpus consiste em (i) gravações de um jogo das personagens e (ii) na leitura, dias depois, dos diálogos entre os participantes do jogo pelos mesmos indivíduos. Os enunciados que compõem as duas partes do corpus contêm, portanto, o mesmo conteúdo proposicional, de maneira que qualquer diferença prosódica existente entre eles se deve unicamente à diferença entre FE e LE. A análise acústica e realização de testes de percepção baseou-se no Método de Análise Melódica da Fala de Cantero & Font-Rotchés (2009). Na pesquisa, observou-se que tanto as interrogativas espontâneas quanto as lidas confirmam a tendência geral de um padrão circunflexo para as perguntas no Rio de Janeiro, conforme descreve a literatura, embora na LE haja mais oscilações micromelódicas ao longo do contorno. Verificou-se que na FE houve maior predomínio do padrão de inflexão final ascendente-descendente, com menor ocorrência dos padrões alternativos. Além disso, nos dados de LE, a média de subida no acento nuclear foi maior do que na FE, revelando uma subida melódica mais saliente na leitura; e o padrão descendente, característico de assertivas ou perguntas parciais, minoritário em ambas as amostras, é um pouco mais recorrente na FE. Observou-se ainda que a ocorrência de contornos que fogem ao padrão estabelecido para as interrogativas está relacionada, geralmente, à expressão de atitudes ou situações pragmático-discursivas bastante específicas.

 

 

 

Coordenação

Coordenador: Prof. Dr. Adauri Bastos

Vice-coordenadora: Prof. Dra. Maria Eugênia Lammoglia 

Secretário: Maria Goretti Mello
posvernaculas@gmail.com

Atendimento

Além de atender por e-mail, a Secretaria do PPGLEV oferece atendimento telefônico e presencial de segunda a quinta-feira, das 12h às 16h, na sala F-319.

Endereço

Programa de Pós-Graduação em Letras  (Letras Vernáculas)
Faculdade de Letras da UFRJ
Av. Horácio de Macedo, 2151
Sala F-319
Cidade Universitária — CEP 21941-917
Rio de Janeiro — RJ