Útlima atualização 07/03/2017

 

Nesse ano foram defendias 27 Teses.

Ana Carla Pacheco Lourenço Ferri

Título: Fernando Namora: o homem pela voz do escritor

Orientador: Monica do Nascimento Figueiredo Páginas: 126



Este trabalho pretende observar o processo de evolução da obra do escritor português Fernando Namora. Uma obra que parte de um contexto humanista mais voltado para o coletivo, afetado pela urgência de uma arte mais interveniente no tocante aos problemas sociais, até chegar a uma fase em que se volta mais para si como estrutura estética, seguindo uma linha mais subjetiva que refletiu as mudanças no contexto histórico, a partir da década de 1950, em Portugal e no mundo. Para isso, o trabalho propõe cotejar cenas de narrativas de cariz mais social, tendo como eixo norteador o romance Fogo na Noite Escura (1943), que marca a convergência do autor ao Neorrealismo, e cenas de perfil mais psicológico, tendo como principais referências O Homem Disfarçado (1957), romance de viragem para uma sondagem mais subjetiva na escrita do autor, Domingo à Tarde (1961) e O Rio Triste (1982), seu último romance. A análise das diversas passagens narrativas intenciona demonstrar que, independente das vertentes ideológicas com as quais dialogou, Fernando Namora soube manter uma postura autônoma, construindo uma escrita que jamais se descuidou da forma nem tão pouco obliterou suas preocupações com o resgate da dignidade humana e de tantos outros valores imanentes ao homem: liberdade, solidariedade, fraternidade, o desejo de pertencimento.

 

Caio Cesar Castro da Silva

Título: A prosódia da negação no português brasileiro: as realizações do não

Orientador: Carolina Ribeiro Serra e Dinah Maria Isensee Callou Páginas:231



Investigamos, nesta tese, as realizações do item de negação com ditongo nasal pleno (não) e com ditongo nasal reduzido (num), com o objetivo de definir o estatuto fonológico das variantes e sua prosodização no português brasileiro. Temos por base a hipótese de que ocorre um processo de cliticização fonológica que faz com que as palavras funcionais não e num tenham comportamentos prosódico e entoacional distintos.
A variação entre as duas formas é percebida na fronteira inicial do sintagma entoacional e também em posição interna, enquanto na fronteira direita do mesmo constituinte é categórica a manutenção da variante plena. A hipótese de que o processo de redução envolva a perda do acento lexical é baseada na frequência com que o operador de negação ocorre no discurso e na própria caracterização do processo de cliticização em várias línguas naturais. Para analisar essa consideração, utilizamos dados de fala espontânea retirados do Projeto Concordância e baseamos nossas assunções teóricas na Teoria da Variação e Mudança, na Teoria da Hierarquia Prosódica e na Fonologia Entoacional Autossegmental e Métrica. Propomos que num tenha status de clítico e sua prosodização seja adjungida ao verbo (que funciona como hospedeiro fonológico), formando um grupo de palavra prosódica; o item não, por sua vez, é analisado como uma palavra prosódica, que pode ocorrer no mesmo sintagmafonológico que o verbo, ao final do enunciado, ou isoladamente, como uma resposta a uma questão total.
A observação de condicionamentos fonológicos, como a distância entre sílabas acentuadas, a análise acústica das médias de duração, a ocorrência de eventos tonais e a comparação com outras palavras prosódicas que tenham estrutura fonológica semelhante contribuíram como indícios para a confirmação da hipótese de haver uma cliticização fonológica, e não sintática.

 

Carina Ferreira Lessa

Título: Graciliano Ramos: o desarranjo interior e a estética da memória

Orientador: Alcmeno Bastos Páginas: 191



O presente trabalho estuda a narrativa pelo filtro da memória em Graciliano Ramos. Aqui, a memória é entendida sob dois ângulos: uma involuntária – que move os narradorespersonagens à escrita –, e outra voluntária – que pauta-se pela necessidade de rememoração. Com isso, a memória involuntária vem como tema: a enfermidade de Adrião, a morte de Madalena, a obsessão por Marina, a vida seca, o trauma de infância e os resquícios de prisão. A voluntária representa o estado psicológico dos personagens por meio da estrutura narrativa. Subdividi a voluntária em duas partes: a memória binocular e a memória esfumaçada. Ambos os termos foram retirados de romances do autor e demonstram o ato de tecer uma linguagem que reflita os pensamentos e desarranjos dos personagens-narradores.
Espera-se trazer um autor que não só tinha preocupações sociais e políticas, mas também com a estética da literatura e com a vida miserável da alma. Mostrar, ainda, como o processo de rememoração parece ser o foco principal de sua obra completa, refletindo a ideia de que Graciliano Ramos é um romancista da solidão, voltado para dentro de si com a realidade profunda da alma, como afirmou José Lins do Rego.
Pretende-se comprovar que o autor não estabeleceu limites entre ficção e não ficção. Entre reminiscências de Graciliano, Luis da Silva, Fabiano, Paulo Honório ou João Valério se vale sempre das mesmas técnicas e expressões que desequilibram a verdade. Todos são romances. Todos os personagens estão marcados por um “desarranjo interior” e uma despreocupação com a realidade cronológica.

 

Cintia Cecilia Barreto

Título: O riso e o grito na ficção de Lívia Garcia-Roza, Ivana Arruda Leite e Claudia Tajes

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas: 180



Esta Tese de Doutorado objetiva apresentar o humor presente na ficção contemporânea de Lívia Garcia-Roza, Ivana Arruda Leite e Claudia Tajes. Por meio das obras selecionadas, contos, novelas e romances, será possível desenvolver a tese de que as autoras utilizam o humor provocando o riso e o grito das personagens femininas. As ficcionistas selecionadas apresentam um olhar voltado a temas ligados à família, ao casamento, às relações amorosas, de gênero e à busca da identidade. Dessa forma, denunciam o patriarcalismo e as imposições de papéis e padrões de conduta estabelecidos pela sociedade. Esta é uma pesquisa pautada nas teorias de gênero, de humor e da literatura, a fim de evidenciar as estratégias utilizadas pelas autoras para deslocarem as personagens femininas das amarras sociais. A ficção contemporânea contribui, assim, por meio do riso, o grito necessário para as mulheres se fazerem ouvir.

 

Claudia Maria Sousa Antunes

Título: A construção do ethos nas cartas do editor de revistas: o valor dos lugares

Orientador: Maria Aparecida Lino Pauliukonis Páginas: 168



Este trabalho consiste em um estudo sobre a construção do ethos no discurso midiático a partir da análise da seção “Cartas do Editor” de duas revistas brasileiras. Pretende-se abordar o processo de persuasão do leitor pelo exame do emprego de estratégias enunciativas, sobretudo pelo uso dos lugares retóricos, para a construção da imagem (ethos) do enunciador. Ao conceito de ethos como construção discursiva, aliam-se as noções de língua/texto como interlocução ou como discurso e consideram-se relevantes as trocas entre os parceiros do ato comunicativo. O arcabouço teórico do trabalho está alicerçado nas lições de Aristóteles (2005), Perelman e Tyteca (2005), Amossy (2011), Charaudeau (2009), Maingueneau (2013) e Reboul (2004) sobre retórica, ethos, discurso, lugares e argumentação. O objetivo do trabalho é mostrar como o ethos construído pela revista está a serviço de um projeto de influência do Eu sobre o Outro; de que forma os lugares retóricos contribuem para a constituição do ethos e qual a relação entre as estratégias discursivas e as noções de identidade feminina e masculina na contemporaneidade. O corpus é constituído por vinte e quatro textos, publicados nas revistas Claudia e Men’s Health, nos anos de 2012 e 2013. O percurso metodológico abrange analisar algumas estratégias linguístico-discursivas de que se valem os sujeitos para a construção de suas imagens discursivas e refletir sobre as contribuições para a construção do sentido linguístico-discursivo obtido pela utilização dessas estratégias. Como resultados advoga-se a ideia da construção de um percurso que leva à identificação do enunciatário com aquilo que é veiculado. O leitor é colocado na posição de coenunciador do texto a partir da incorporação dos valores veiculados pela publicação, o que promoveria a adesão do outro pelo alinhamento entre o ethos do enunciador e a imagem do ethos do enunciatário formulada pelo enunciador.

 

Dedilene Alves de Jesus

Título: A modificação adjetival privativa em língua portuguesa: a perspectiva da linguística cognitiva

Orientador: Maria Lúcia Leitão de Almeida e Verena Kewitz Páginas:171



O adjetivo privativo foi conceituado por Kamp (1975) como um tipo de adjetivo que estabelece relações de propriedades para propriedades, isto é, exerce função modificadora das propriedades intensionais do N. Para identificação do adjetivo privativo, partimos da disposição de que tal adjetivo é marcado discursivamente pela paráfrase “o que não é N”, quando associado a um nome ou construção nominal. Enquadramos o adjetivo privativo nas questões concernentes à modificação adjetival, amparados em estudos descritivos do português e da Linguística Cognitiva, no intuito de identificarmos os traços característicos da construção modificada privativa. Além disso, procuramos vincular a noção de propriedades intensionais ao conceito de affordance (propriedade invariante do ambiente provida ao indivíduo), termo emprestado pelas teorias de percepção visual (GIBSON, 1979), em uma perspectiva corporificada da língua (LAKOFF, 1987). Assim, fizemos uso de dados coletados pelas ferramentas de busca Google e WebCorp, analisados dentro dos critérios distribucionais produtivos postulados por Casteleiro (1979) para a distinção entre adjetivos predicativos e não-predicativos, além da noção de frames e espaços mentais (FAUCONNIER, 1985) e também do processo de mesclagem conceptual (FAUCONNIER E TURNER, 2002), para verificarmos as alterações nas affordances do N em construções A+N/N+A e N+N a partir dos adjetivos falso, suposto, antigo, provável, possível e postiço.

 

Elaine Brito Souza

Título: Lima Barreto e a memorialística: sujeito e autobiografia

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto e Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo Páginas:212



Esta tese analisa os textos memorialísticos de Lima Barreto, a saber Diário íntimo, Diário do hospício e O cemitério dos vivos, com base no conceito de sujeito como multiplicidade desenvolvido por Friedrich Nietzsche. O surgimento dos gêneros memorialísticos, como o diário e a autobiografia, está diretamente relacionado ao nascimento do sujeito moderno, cuja expressão encontra sua forma paradigmática em Confissões, de Jean-Jacques Rousseau, publicado pela primeira vez em 1782. Cerca de cem anos depois, Friedrich Nietzsche escreve Ecce homo, a autobiografia com a qual encerra sua obra. Ao questionar os principais pressupostos autobiográficos, como a integridade do sujeito e a possibilidade de comunicação de sua verdade interior por meio da linguagem, o projeto autobiográfico do filósofo alemão estabelece um contraponto conceitual ao do pensador genebrino. Por sua vez, os textos memorialísticos de Lima Barreto, ao buscarem uma resposta para a crise do sujeito e da representação no início do século XX, revelam uma concepção de sujeito que, assim como a de Nietzsche, se afasta dos parâmetros de unidade da tradição memorialística. O trabalho abordará, então, como a multiplicidade do sujeito produz fissuras nas formas memorialísticas, o que pode ser observado nos textos autobiográficos de Lima Barreto. Ao apresentarem uma maneira inovadora de falar de si, o Diário íntimo, o Diário do hospício e O cemitério dos vivos permitem pensar questões relativas à subjetividade e as consequências de seu declínio para o pensamento e a escrita memorialística.

 

Fábio Gusmão da Silva

Título: A construção de um ethos discursivo por meio de recursos intertextuais

Orientador: Lúcia Helena Martins Gouvêa Páginas:162



Esta pesquisa tem como objetivo estudar a construção de um ethos, por meio de recursos intertextuais, em crônicas produzidas pelo colunista Diogo Mainardi. O corpus é composto de 213 textos escritos, entre os anos de 2006 e 2010, e publicados na revista semanal Veja. O recorte teórico da pesquisa baseia-se em preceitos da Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, em pressupostos da Linguística Textual, de Ingedore Koch e de postulados da Análise do Discurso desenvolvidos por Dominique Maingueneau. O que se pretende evidenciar é a construção de uma determinada imagem expressa por Mainardi a partir da intertextualidade, considerando o intertexto uma marca explícita desse articulista na construção de seu estilo, que é analisado em sua relação enunciativa com o ethos discursivo. O conceito de ethos está em consonância com o da Análise do Discurso, especificamente com as pesquisas de Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau, em que se leva em consideração a posição enunciativa do enunciador, ou seja, uma das imagens de si que o enunciador Mainardi projeta em seu discurso. As análises, de natureza qualitativa e quantitativa, revelam a imagem de um enunciador com um repertório cultural bastante vasto que contribui para a formação de um ethos de inteligência. A construção desse ethos resulta do emprego de intertextos presentes em seus escritos, de seus dizeres, que são recorrentes em seu modo singular de enunciar.

 

Gesieny Laurett Neves Damasceno

Título:A transitividade de processos materiais em notícias jornalísticas

Orientador: Violeta Virginia Rodrigues e Mônica Maria Rio Nobre Páginas:248



Para a Gramática Sistêmico-Funcional, as línguas, de um modo geral, são organizadas em torno de três tipos principais de significados: o ideacional, o interpessoal e o textual. Esses significados, chamados de metafunções, são a manifestação no sistema linguístico dos três objetivos principais que fundamentam todos os usos da linguagem: representação, interação e mensagem. Na perspectiva sistêmica, os papéis principais do sistema de transitividade fornecem o quadro de referência para que a experiência da realidade seja interpretada. Tendo em vista essa concepção, este trabalho objetiva investigar o modo como os componentes do sistema de transitividade são articulados em textos pertencentes ao gênero notícia jornalística, a fim de que os propósitos sociocomunicativos desse gênero discursivo sejam mais eficazmente alcançados. Como aporte descritivo-metodológico, elegeram-se oito parâmetros, que visaram a abarcar tanto as propriedades sintáticas e semânticas dos elementos envolvidos na transitividade, como as propriedades pragmáticas e discursivas que atuam nas escolhas efetuadas. São exemplos desses parâmetros: caracterização dos fazeres transitivos e intransitivos, número de Participantes na cláusula, formas de expressão do significado, objetivos pragmático-discursivos das configurações clausais e expansão dos Processos Materiais. O corpus da pesquisa constitui-se de 31 notícias jornalísticas, retiradas do corpus Varport. O recorte de análise compreende 131 cláusulas construídas em torno de Processos do tipo Material. Para o reconhecimento dos padrões de transitividade codificados nas notícias9 jornalísticas e a estimativa das correlações entre os parâmetros arrolados, utilizamos como ferramentas os Mapas Auto-Organizáveis (do inglês, Self-organizing Maps – SOM), que se constituem em um tipo de Rede Neural não supervisionada, e a estimativa da correlação de Pearson. Tendo em vista a relação de similaridade entre os sinais de entrada, foi possível identificar quinze importantes padrões linguísticos, que sintetizam, com bastante eficácia, as escolhas efetuadas no âmbito do sistema de transitividade e os significados construídos nas notícias jornalísticas a partir dos arranjos estabelecidos. O estabelecimento da correlação entre os parâmetros analisados permitiu entrever, por exemplo, (i) a relação existente entre as expressões metafóricas e a ocultação do real agente da ação verbal, (ii) a tendência de os fazeres intransitivos codificarem experiências mais concretas, (iii) a importância das expressões metonímicas no processo de construção de face de instituições empresariais e (iv) o alto grau de importância dos elementos circunstanciais na representação dos fazeres intransitivos.

 

Gregory Magalhães Costa

Título:Ressonâncias da literatura brasileira em Grande Sertão: Veredas

Orientador: Adauri Silva Bastos Páginas:341



Esta tese entende Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa como síntese da literatura brasileira. Tanto por absorção e transformação quanto por palimpsesto, Rosa recria o ponto de vista, práxis, temas, motivos e tons literários barrocos, árcades, românticos, até tendências modernas. A práxis literária nacional encontra-se não misturada, mas como ressonância da universal. Rosa busca os pontos de contato entre elas, como uma ancestralidade contida nos genes primordiais de nossa literatura: as ressonâncias da Antiguidade na modernidade. Essas absorções e transformações também são responsáveis por unir em um único espaço literário os mitos dos quatro cantos do mundo, inaugurando a visão mitopoética do Grande sertão, de indissociabilidade entre passado, presente e futuro, unidos rapsodicamente numa narrativa original e originária.

 

Luana Maria Siqueira Machado

Título: A patemização em crônicas de Zuenir Ventura

Orientador: Lúcia Helena Martins Gouvêa Páginas:221



O presente trabalho propõe-se a analisar e sistematizar as estratégias de patemização presentes em crônicas de Zuenir Ventura. Essa pesquisa fundamenta-se em estudos de Análise do Discurso, apoiando-se, principalmente, nas contribuições da Teoria Semiolinguística de Patrick Charaudeau e suas considerações a respeito do conceito de patemização. Acrescentam-se à teoria estudos de Christian Plantin, nos quais defende a completa integração entre razão e emoção e a possibilidade de se argumentar por meio da emoção. Com base nesses autores, a análise visa a detectar as estratégias linguístico-discursivas utilizadas pelo cronista para, na construção do texto, suscitar emoções no auditório. Essas emoções têm propósito argumentativo, orientando o leitor para a tese defendida no texto. O corpus dessa investigação é composto por 77 crônicas escritas por Zuenir Ventura no ano de 2013 e publicadas no jornal O Globo. Pretende-se, dessa forma, comprovar a tese de que o cronista utiliza variadas estratégias para construir uma argumentação via pathos. Além disso, busca-se confirmar que a crônica jornalística é um gênero aberto a uma visada patêmica; que o uso do modo enunciativo de organização do discurso ocorre por meio de dois comportamentos discursivos distintos: elocutivo e delocutivo, oscilando entre as modalidades da opinião e da asserção; e que o autor, dentre as variadas estratégias, utiliza com mais frequência expressões modalizadoras para construir sua argumentação via pathos.

 

Maíra Contrucci Jamel

Título: Uma loja comunal: a questão do plágio de Eça de Queirós e Aluísio Azevedo

Orientador: Monica do Nascimento Figueiredo Páginas:158



A presente tese pretende discutir como a ideia de plágio pode ter maculado a obra de dois importantes escritores da língua portuguesa, Eça de Queirós e Aluísio Azevedo. Será realizada uma leitura comparada entre os autores que foram considerados plagiadores, sem deixar de levar em conta o fato de o brasileiro ter sido acusado de plagiar o português. Para tanto, serão exploradas as mudanças de significado que o termo plágio sofreu ao longo do tempo, bem como suas implicações para o fazer literário. O enfoque será especificamente no século XIX para entender como o plágio começa a ter um valor diferenciado num tempo essencialmente burguês, no qual as ideias de posse e propriedade influenciavam a vida da sociedade. Dessa forma, analisaremos o contexto e a repercussão que O Crime do Padre Amaro e O Mulato tiveram por meio da observação de periódicos brasileiros do final dos oitocentos. Por fim, as narrativas serão analisadas comparativamente buscando entender as trocas que estabelecem entre si.

 

Marcelo Villela Fabiani

Título: A ressonância do discurso polifônico na poética de Autran Dourado

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas:175



Este trabalho abordará a influência do discurso polifônico na formação do universo ficcional de Autran Dourado, tendo como principal referência os estudos empreendidos por Mikhail Bakhtin sobre polifonia (BAKHTIN, 2008 [1929]). A fim de desbastar o princípio composicional responsável pela urdidura da trama de efabulação do escritor mineiro, no intuito de verificar a transgressão do modelo tradicional de representação literária, adotar-se- ão fundamentalmente, como suporte teórico, as reflexões empreendidas por Dourado sobre a criação artística, tomando, para isso, seus ensaios Uma poética do romance: matéria de carpintaria (DOURADO, 1976) e O meu mestre imaginário (DOURADO, 1982), assim como os trabalhos realizados por Ronaldes de Mello e Souza (SOUZA, 2006-2007-2009- 2010). Como corpus para análise, os romances Confissões de Narciso e Os sinos da agonia serão utilizados com o propósito de legitimar a filiação da prática narrativa do ficcionista brasileiro a um matiz discursivo peculiarizado pela valorização irrestrita do fenômeno da alteridade, tencionando a elaboração de uma novelística fundamentada na consecução do drama de paixão de personagens mortas em vida. Nesse sentido, institui-se um texto dessacralizante, cujo narrador assume máscaras diversas, consubstanciadas em perspectivas e funcionalidades várias, com o objetivo de promover a construção e a desconstrução do universo de agonia e morte no qual os caracteres autranianos encontram-se insertos. Logo, visando imputar ao texto ficcional maior ritmo, privilegiando não somente as diversas vozes presentes, mas também possibilitando múltiplas montagens e leituras, Dourado emprega invariavelmente a técnica dos blocos narrativos na composição da estrutura arquitetônica de sua novelística, fomentando uma trama de efabulação plurissignificativa e dialógica, responsiva pela incessante interação dialética estabelecida entre leitor e obra invencionada. A busca pela isomorfia entre forma e conteúdo se compraz no engendramento de uma trama imagética, cujas imagens estabelecem a íntima correspondência entre mundo e homem agônicos, propiciando às personae fictae, tanto de Confissões de Narciso, como de Os sinos da agonia, a encenação de seus dramas existenciais em um ambiente regido pela força tanática, que encontra ressonância na adoção do tempo coagulado no passado e na constituição do espaço estagnado, numa evocação permanente à memória dos mortos. Com relação a este romance, faz-se ainda mister o minucioso exame do processo de carnavalização literária imputado ao ritual de morte em efígie, a fim de se compreender como ocorre a construção da mundividência de uma personagem morta em vida, Januário..

 

Maria de Fatima Vieira

Título: A ordem tos clíticos pronominais nas variedades urbanas europeia, brasileira e são-tomense: uma análise sociolinguística do português no início do século XXI

Orientador: Silvia Rodrigues Vieira Páginas:238



Com o objetivo de investigar a colocação dos clíticos pronominais na modalidade oral da Língua Portuguesa, a presente tese utiliza dados do Português Europeu (PE), do Português Brasileiro (PB) e do Português de São Tomé (PST). A pesquisa tem como base (i) a Sociolinguística Variacionista (WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968); (ii) o tratamento dado aos temas gramaticais, como a colocação pronominal, a noção de complexos verbais, em estudos anteriores; e (iii) questões relacionadas a situação de contato linguístico. Pretende, assim, verificar se a regra de colocação pronominal nas três variedades é categórica, semicategórica ou variável (LABOV, 2003), além de mostrar, com base em análise comparativa dos dados, as semelhanças e diferenças entre os padrões verificados na língua do país colonizador (PE) e na dos países colonizados (PB e PST).
Para tanto, foram analisadas as estruturas com um constituinte verbal – lexias verbais simples – e com mais de um – complexos verbais. O corpus pertence ao banco de dados do projeto “Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias”. Todos os dados são de variedades urbanas do início do século XXI e podem ocupar, em relação às lexias verbais simples, as posições: proclítica (Não se senta), enclítica (Senta-se) ou mesoclítica (Sentar-se-á). Nos complexos verbais, os dados poderão aparecer antes do complexo verbal (Não se pode sentar), no interior, em ênclise a v1 ou em próclise a v2 (Pode(-)se sentar / Pode-se sempre sentar / Pode sempre se sentar) ou depois (Pode sentar-se).
Com o auxílio computacional do GOLDVARB-X, determinam-se as variáveis linguísticas e extralinguísticas importantes, em caso de regra variável. Foi possível, verificar que, no PB, a regra é semicategórica– variante pré-verbal/próclise a v2. No PE e no PST, há ênclise categórica em início absoluto de oração. Nos demais contextos, há variação nessas duas variedades, com preferência pela próclise em contextos com atratores; no PST, essa preferência ocorre em meio a maior oscilação nos mesmos contextos sintáticos – típica de uma língua em formação sobretudo em situação de intenso contato linguístico. Mesmo com a presença de proclisadores clássicos, a próclise não ocorreu de forma categórica no PE nem no PST e, nesta variedade, ocorreram alguns dados semelhantes aos brasileiros, como a próclise com sujeitos e conjunções coordenativas. Nos complexos verbais, a colocação pronominal nas duas variedades é sensível à forma do verbo principal: com gerúndio e particípio, ocorre a próclise ou a ênclise a v1; com infinitivo, há variação sensível ao tipo de complexo, ao tipo de clítico e ao elemento antecedente ao complexo.

 

Matheus Odorisi Marques

Título: Homofobia e referenciação: um estudo de caso

Orientador: Leonor Werneck dos Santos Páginas:197



O propósito do trabalho é investigar como a identidade homossexual é construída no discurso do pastor da igreja neopentecostal Vitória em Cristo, Silas Malafaia, e a partir dessa análise, apontar o uso ideológico das estratégias referenciais. A escolha desse estudo de caso justificase pelo considerável espaço na mídia brasileira e notável incursão na política do pastor, que está constantemente envolvido em discussões polêmicas relativas a direitos da população LGBT. Em seus discursos, como demonstramos, a identidade homossexual é posta como prática, é desumanizada, categorizada como doença e o indivíduo é categorizado como inimigo e ameaça. Baseados no marco teórico da Linguística de Texto, com especial enfoque na referenciação, observaremos nas transcrições de pregações realizadas por Malafaia as estratégias utilizadas para fazer emergir a ideologia homofóbica. Além disso, abordaremos a Análise Crítica do Discurso, teoria que tem especial interesse em discursos de ódio, este inserido em uma relação intrínseca com sociedade e cognição. A construção da identidade homossexual no discurso de Malafaia é descrita por meio da investigação dos processos referenciais e da própria estrutura construtiva do texto. Dessa maneira, analisamos as escolhas lexicais na referenciação, assim como os movimentos referenciais que relacionam as predicações, e também a estruturação polarizada do discurso, que opõe os grupos sociais homossexuais e evangélicos. Percebemos e descrevemos, assim, a orientação realizada por meio dessas estratégias, que nos levam para a ideologia homofóbica, que por sua vez, aponta para crenças que excluem o indivíduo que diverge da heterossexualidade compulsória, marginalizando-o e criando uma realidade em que não há espaço para a sua existência.

 

Mayara Nicolau de Paula

Título: A ordem VS/SV e as interrogativas-Q no PE e no PB: uma análise diacrônica

Orientador: Maria Eugenia Lammoglia Duarte Páginas:147



À luz do modelo de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1995), esta tese apresenta uma investigação diacrônica das interrogativas-Q no português europeu (PE), com base em uma amostra constituída de dados coletados em peças teatrais portuguesas, escritas ao longo dos séculos XIX e XX. Paralelamente, foi elaborada uma breve análise dos padrões de interrogativas Q encontrados entrevistas orais contemporâneas e em textos jornalísticos. Os resultados são comparados com os obtidos para as interrogativas Q do português brasileiro (PB), a partir de Duarte (1992) e Pinheiro e Marins (2012). Como o PE exibe comportamento de língua de sujeito nulo consistente, trabalho com a hipótese de que os sujeitos de primeira e segunda pessoas, bem como os anafóricos de terceira, devem exibir a preferência por sujeitos nulos. Em relação aos sujeitos expresso (DPs lexicais e pronomes), a gramática do PE deve apresentar a ordem V(erbo) S(ujeito) ativa e a ocorrência de S(ujeito) V(erbo) será condicionada pela presença da clivagem. Tomando o modelo de Competição de Gramáticas (Kroch, 1989, 2001) para a interpretação da mudança linguística, os resultados confirmam minha hipótese inicial: o PE exibe uma competição que envolve a ordem QVS, resquícios de uma gramática V2, que passa a QSV em consequência da entrada e generalização da clivagem, que vai se tornar o padrão mais frequente não apenas nas interrogativas QSV, mas também em QV (interrogativas com sujeito nulo). Já, o PB, que exibe resíduos de uma gramática V2, tal como o PE, nas três primeiras sincronias analisadas (século XIX e primeiro quartel do século XX), passa a exibir uma nova gramática, igualmente desencadeada pela entrada da clivagem, mas, a partir de então, generalizar a ordem QSV independentemente da clivagem, ao mesmo tempo que remarca o valor do Parâmetro do Sujeito Nulo. As evidências empíricas aqui encontradas sustentam a hipótese de que a ordem QSV no PE não está relacionada à perda do sujeito nulo, como ocorreu no PB. Uma discussão seguida da sistematização formal dos padrões de interrogativas Q atestados finaliza a análise.

 

Neide Higino da Silva

Título: Diferentes perspectivas sobre o formativo agro-: aspectos históricos, morfológicos e semânticos

Orientador: Carlos Alexandre Victorio Gonçalves Páginas:187



O objetivo desta pesquisa é analisar o estatuto do formativo agro-, por meio de diferentes enfoques: histórico, morfológico e semântico. Essas perspectivas são utilizadas, uma vez que, pela observação dos dados, são reconhecidas, na Língua Portuguesa, duas formas de diferentes origens, agro- e agri-, do grego e do latim, respectivamente, com significados comuns, coexistindo no Português, a exemplo de agricultura e agronomia. Por isso, as implicações históricas dessas origens são verificadas na atual sincronia.
A análise do estatuto morfológico dos formativos é feita a partir do continuum composição e derivação, como proposto por Bauer (2005) e Kastovsky (2009) e, posteriormente, implementado, para o português, por Gonçalves (2011b) e Gonçalves e Andrade (2012). As características do formativo são examinadas, a fim de encontrar seu posicionamento no referido continuum.
Os dois elementos morfológicos, embora de origens distintas, possuem o mesmo significado genérico, campo, nas palavras advindas das línguas clássicas, como agrícola e agrônomo, ou em formações classificadas como “compostos neoclássicos”, a exemplo de agricultar e agrologia. No entanto, em novas construções, agro- assume diferentes sentidos, a exemplo de agricultura em agropecuária e produtos de origem agrícola em agrocombustível. O significado dos formativos relaciona-os a processos distintos: composição neoclássica ou recomposição. Por isso, os sentidos instanciados nas construções são examinados.
O modelo baseado no uso (BYBEE, 2005, 2010), (LANGACKER, 2008) é o referencial linguístico que orienta esta pesquisa, uma vez que as estruturas investigadas são compreendidas como resultado de atividades cognitivas e sociais que se manifestam em mudanças linguísticas.

 

Paula Crespo Halfeld

Título: O modo de organização enunciativo no gênero blog: um estudo sobre subjetividade e diversidade contratual

Orientador: Maria Aparecida Lino Pauliukonis Páginas:212



A pesquisa examina como o modo de organização enunciativo se manifesta em textos publicados em diferentes tipos de blog, agrupados nas seguintes categorias: blogs pessoais, jornalísticos, de entretenimento, de utilidades e de humor. Busca-se identificar e analisar quantitativa e qualitativamente as diversas modalidades enunciativas presentes nos textos, segundo elenco proposto por Charaudeau (2009b), bem como as categorias de língua que as materializam e os efeitos de sentido produzidos. Além disso, em um segundo momento, a tese investiga as diferentes classes de adjetivos subjetivos empregadas nos textos, com base em classificação de Kerbrat-Orecchioni (1997), e analisa sua relação com o quadro enunciativo delineado anteriormente. Para integrar o corpus do trabalho, foram selecionados vinte blogs brasileiros, quatro de cada categoria elencada. O estudo pretende responder às seguintes questões: 1) Qual a relação estabelecida entre o emprego de determinadas modalidades e categorias enunciativas e os diferentes tipos de blog, considerando o contrato de comunicação firmado entre autor e leitor? 2) Uma única categoria modal é capaz de produzir efeitos de sentido diversos a depender do tipo de blog ou dos objetivos específicos dos textos? 3) De que maneira as particularidades enunciativas observadas nos diversos tipos de blog se refletem na seleção lexical, propriamente na escolha dos adjetivos subjetivos? Para fomentar a pesquisa, são adotados, sobretudo, os postulados teóricos da Análise do Discurso, notadamente da Semiolinguística. De modo geral, pretende-se jogar luz sobre a diversidade de estratégias discursivas presentes no gênero digital blog e sobre as particularidades da relação de coautoria estabelecida entre autor e leitor nesse espaço.

 

Rachel de Oliveira Pereira Lucena

Título: Pronomes possessivos de segunda pessoa: a variação teu/seu em uma perspectiva histórica

Orientador: Célia Regina dos Santos Lopes Páginas:220



O presente estudo objetiva analisar a variação existente entre as formas simples de pronomes possessivos de segunda pessoa do singular, isto é, teu/tua/seu/sua, diacronicamente, no português brasileiro, buscando explicar o que o motiva tal variação e observar em especial o comportamento do pronome seu. Para a realização deste trabalho, pretende-se realizar duas etapas distintas de análise da variação possessiva. Primeiro, será realizado um estudo de longa duração (1870 a 1970), com base em cartas pessoais, verificando os contextos linguísticos e extralinguísticos que influenciam na variação entre os pronomes possessivos referentes à segunda pessoa. Para tanto, a análise quantitativa e qualitativa dos dados baseia-se nos pressupostos da sociolinguística variacionista (LABOV, 1994; WEINREICH; HERZOG; LABOV, 1968). Além disso, na análise dos pronomes possessivos serão observadas também as situações comunicativas em que os pronomes estão inseridos, observando as relações de poder na ótica da teoria de Poder e Solidariedade proposta por Brown e Gilman (1960). Assim sendo, o presente estudo possui duas hipóteses norteadoras. A primeira é a de que a forma você é um fator condicionante para o emprego de seu como forma possessiva de segunda pessoa. Assim, acredita-se que o pronome possessivo acompanhou a utilização do sujeito até ter seu uso generalizado. A outra hipótese que orienta o estudo é a de que o pronome possessivo de segunda pessoa seu/sua é extremamente dependente do contexto comunicativo em que ele está inserido. Em síntese, a tese mostra que a utilização de seu como estratégia de referência à segunda pessoa está intrinsecamente relacionada à inserção de você no quadro de pronomes do português brasileiro. Além disso, a categoria pronome possessivo mostra-se com comportamento diferenciado dos demais subtipos pronominais.

 

Rafael Barbosa Julião

Título: Infinitivamente pessoal: a verdade tropical de Caetano Veloso

Orientador: Eucanaã Ferraz Páginas:387



Observa-se no conjunto das produções de Caetano Veloso (tanto no cancioneiro, quanto nas publicações em prosa) uma peculiar aptidão para fundir questões privadas com discussões públicas. Em Verdade tropical de 1997, obra em que o autor conta a história do tropicalismo a partir de sua perspectiva pessoal, essa combinação resulta em uma forma original de discutir e de interpretar o Brasil e sua cultura. O presente estudo propõe a tese de que a fusão entre o pessoal e o público, projeta-se estruturalmente no caráter híbrido do livro de Caetano Veloso, em que se equilibram autobiografia, história do tropicalismo (e da canção popular brasileira) e ensaio de nacionalidade.

 

Rafael Loureiro de Almeida

Título: Martins Pena: a tragicomédia de um dramaturgo brasileiro

Orientador: Adauri Silva Bastos Páginas:212



Diante da perspectiva de expor a história e a obra de Martins Pena (1815-1848) de maneira aprofundada, debruçamo-nos sobre diversos documentos, manuscritos e publicações do século XIX. O objetivo era fortalecer a posição de um dos maiores comediógrafos brasileiros, mediante a refeitura de partes de sua biografia de maneira crítica, ou seja, perscrutando os dados úteis ao entendimento de sua obra. Nesse sentido, foram de especial valia as documentações encontradas na Biblioteca Nacional, nos arquivos nacionais do Brasil e da Inglaterra, entre outros acervos.
Vimos com especial interesse os registros de leitura de Martins Pena na Biblioteca Nacional, nos quais são listadas algumas das publicações com que ele teve contato. Também valorizamos o estudo dos periódicos da época, entre os quais descobrimos dois contos de nosso autor. Além disso, repensamos sua trajetória desde o nascimento, passando pela infância, a formação na Aula do Comércio e a carreira de jornalista, dramaturgo, comediógrafo e colunista. Esperamos, assim, ter criado uma base melhor para compreender o contexto em que Martins Pena criou a mais bem-sucedida obra teatral entre seus contemporâneos brasileiros.

 

Regina Simões Alves

Título: Construções sufixais de aumentativo: uma análise com base na gramática das construções

Orientador: Carlos Alexandre Gonçalves e Maria Lucia Leitão de Almeida Páginas:170



Este trabalho surge do questionamento sobre o porquê de se ter na língua portuguesa tantos afixos com sentido de aumento, a exemplo de -ão, -aço, -ada, -aria, -eiro (a), -udo, -ento e -oso. Estamos diante de diferentes sufixos que podem ser adjungidos a uma mesma base e cujos produtos não compartilham, na maioria das vezes, da mesma interpretação, como em “cabelão”, “cabelada”, “cabeleira”, “cabeludo”, “piolhão”, “piolhaço”, “piolhento”, “piolhada”, “piolhudo” etc. Alguns afixos passaram a imprimir o sentido de aumento, de acordo com a sua história, mesmo quando a língua já dispunha de outros formativos para esse fim. O trabalho visa a apresentar abordagens históricas desses afixos que figuram em construções de aumento e observar a inflexão aumentativa adquirida por eles ao longo da história através dos dados coletados em compêndios de gramática histórica (SAID ALI, 1966; COUTINHO, 1968; MACHADO, 1967) e, principalmente, em dicionários etimológicos e eletrônicos. Boa parte dos dados provém da consulta à base de dados de "Corpus do Português". A partir da constatação da afinidade semântica entre esses sufixos, é possível observar a relação semântica de aumento existente entre eles no processo de formação de palavras e defender que, de acordo com os princípios de Poder da Força Expressiva Maximizado e do Princípio de Não Sinonímia de Goldberg (1995), essas formas não são sinônimas e surgiram para atender as necessidades comunicativas dos falantes, fato que explicaria a mudança que os dotou da capacidade de atualizar essa noção de aumento numa mesma base, ora com especificidades semânticas, ora com diferenças pragmáticas. Também propomos a formalização da construção genérica de aumentativo e uma rede das construções de aumentativo, bem como os links de herança dessas construções.

 

Renata Quintella de Oliveira

Título: Um olhar "perverso": percorrendo O Reino, de Gonçalo M. Tavares

Orientador: Ângela Beatriz de Carvalho Faria Páginas:341



Na tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares, também denominada pelo próprio autor de Livros Pretos e composta pelos romances Um homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica, a “Estética da Crueldade” está fortemente presente, seja através dos temas, que exploram a violência, a maldade e a desumanização, seja através da forma com que o autor elabora a tessitura narrativa. Em nossa análise, filiamos esse grupo de livros à “Estética da Crueldade”, como veremos através das discussões esboçadas por diversos ensaístas que compõem a coletânea Estéticas da Crueldade, organizada por Ângela Maria Dias e Paula Glenadel, assim como através de menções a Antonin Artaud e Clément Rosset. Também serão fundamentais para este trabalho a alusão às reflexões propostas por Theodor Adorno e Hannah Arendt, em relação aos mecanismos que conduziram aos regimes totalitários e Michel Foucault, quando este se dedica ao estudo dos mecanismos de vigilância e punição. Assim como a crueldade, é flagrante nesses romances também a abordagem em torno da abjeção, outro ponto fundamental nas obras selecionadas. Estabelece-se, também, um diálogo original com Atlas do Corpo e da Imaginação, obra tavariana que alia criação literária com reflexões teóricas do próprio Gonçalo M. Tavares e que, até o presente momento, ainda não fora incluída em Dissertações de Mestrado e/ou Teses de Doutorado incorporadas ao presente trabalho, fundamentais para iluminar as nossas reflexões críticas.

 

Rodrigo Carvalho da Silveira

Título: A poética do réu em Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas:131



Pensar, falar, argumentar, persuadir, convencer. O escritor ao lidar com a palavra passa por diversos processos de construção de discurso. O poeta recolhe os elementos, recorta-os, seleciona-os, dá luz a determinados objetos, empalidece outros, escamoteia outros mais e dá papéis de protagonista a determinados detalhes. Ele escolhe o que nos deseja apresentar e através de sua organização e de seu olhar, é possível analisar e perceber os segredos do texto.
Desta forma, Tomás Antonio Gonzaga, em seus poemas que compõem Marília de Dirceu, utiliza como mecanismo estruturador de seu livro a retórica de gênero judiciário, transforma a linguagem retórica do direito em linguagem literária, reunindo em sua poética ambas as linguagens. Aristóteles define o gênero judiciário como uma ação que “comporta a acusação e a defesa”, neste caso, o que importa ao poeta é a defesa, que é dividida em duas grandes partes: defesa como noivo ideal e defesa como inocente da acusação de participante da Inconfidência Mineira. Estas formas de defesa correspondem à Parte 1 e à Parte 2, respectivamente, do livro de poemas Marília de Dirceu.
Diante disso, o trabalho pretende estudar Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, através da visão das duas partes como componentes de um todo orgânico, portador de um sentido e organizado através de um eixo estruturador: a retórica de gênero judiciário, que engloba em si o “lirismo amoroso tecido à volta de uma experiência concreta” e “o roteiro de uma personalidade, que se analisa e expõe, a pretexto da referida experiência”. A esta forma lírica de Tomás Antonio Gonzaga chamaremos de “A poética do réu”.

 

Talita Silveira Coriolano

Título: As performances do narrador em Lygia Bojunga

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas:159



Lygia Bojunga, escritora gaúcha com 21 livros publicados, é conhecida e reconhecida como autora de livros infanto-juvenis. Basta observar algumas das premiações a ela concedidas, como o Hans Christian Andersen, mais tradicional prêmio internacional para crianças e jovens, obtido em 1982 pelo conjunto da obra. Mas uma análise de seu trajeto literário revela que seu processo criativo foi se modificando, a ponto de atualmente ser questionável o direcionamento ao referido público. Identificamos a chamada trilogia do livro (LIVRO: Um Encontro com Lygia Bojunga, Fazendo Ana Paz e Paisagem) como o divisor de águas, a partir dessa trilogia observamos a presença de uma primeira pessoa híbrida, indecisa, ambígua, oscilando entre o referencial e o ficcional. Nosso corpus abarca justamente os seus livros em que a narração está em primeira pessoa, são eles: a trilogia acima mencionada, Feito à Mão, O Rio e Eu e Retratos de Carolina. Abordaremos alguns aspectos presentes em sua narrativa que a tornam singular, como os jogos de equívoco, o desdobramento em camadas e a simbologia das máscaras, bem como refletiremos acerca da relação da narrativa com o leitor. Por fim estudaremos as performances desse narrador ambíguo, que desvela o seu processo criativo ao mesmo tempo em que desnuda a ficção como ficção, oscilando nessa tensão entre o referencial e o ficcional.

 

Tiana Andreza Melo Antunes

Título: Estados de alma e suplementos televisivos: uma análise semiótica

Orientador: Regina Souza Gomes Páginas:232



Nosso trabalho analisa as paixões presentes nos suplementos televisivos de três jornais impressos que circulam no Rio de Janeiro (O Globo, Extra e O Dia), a partir da teoria semiótica de base francesa. O estudo das paixões permite compreender a complexidade das narrativas, observando não somente o fazer dos sujeitos, mas também o ser. Ao recair sobre o ser, explicam-se as transformações passionais. Dentro da semiótica francesa, as paixões são os estados de alma dos sujeitos analisáveis a partir das modalidades, da aspectualização e da tensividade. A importância deste estudo consiste em tecer, a partir da escolha teórica feita, uma análise das paixões em material ainda não descrito em termos semióticos. O corpus permite delinear as paixões mais recorrentes desse discurso que trata do universo televisivo e, por outro lado, revelar a associação entre paixão e cultura, pois a “dimensão afetiva [...] é particularmente sensível aos parâmetros culturais em vigor”, de acordo com Fontanille (2012, p. 214). Pode-se afirmar, após a análise do corpus, que há determinados efeitos passionais que ganham maior relevo nos textos estudados, compondo uma verdadeira “configuração discursiva” (Fiorin, 2011, p. 107). Além disso, é possível atrelar certas paixões, como o amor, a temas como proteção (o amor parental) e submissão (amor romântico), por exemplo. Com os textos de tais suplementos, é possível desvelar também como o observador social julga e sanciona os comportamentos dos sujeitos e a presença de um narrador desprovido de um dizer apaixonado

 

Silvio César Santos

Título:Antes Tarde do que Nunca - Analisando a Construção Comparativa de Preferencialidade

Orientadora:Maria Lúcia Leitão de Almeida Páginas: 199



O tema dessa pesquisa se enquadra no âmbito analítico das construções do Português do Brasil (PB) e toma por objeto de estudo uma construção que se encontra em um nódulo da rede construcional comparativa. A Construção Comparativa de Preferencialidade [Antes tarde do que nunca] caracteriza-se principalmente por apresentar a semântica comparativa adjungida e integrada à semântica de preferencialidade, em que a função discursiva se traduz em um aprendizado adquirido a partir de um evento, mormente, uma pequena narrativa. Essa construção não possui uma descrição efetiva nos manuais gramaticais abordados na revisão da literatura e também não foi encontrada nenhuma análise, seja de viés Funcionalista, Gerativista ou Cognitivista. A construção possui forma e significado diversos das construções comparativas prototípicas, uma vez que seu elemento graduador se encontra sempre à esquerda e, quando integrado à estrutura composta comparativa, forma um conglomerado semântico que reúne os conceitos de comparação e preferencialidade. A construção analisada se difere dos provérbios prototípicos por não apresentar sua estrutura cristalizada, podendo ter alguns de seus componentes permutados [Antes ele do que eu]. A pesquisa adota a metodologia qualitativa, privilegiando, dessa maneira, as estruturas semânticas e sintáticas da construção, pois o objetivo principal será a descrição e atualização de uma nova construção da rede construcional comparativa. O aporte teórico utilizado nessa pesquisa consiste, principalmente, na abordagem construcional de Langacker (2008) e os Esquemas Imagéticos (JOHNSON e LAKOFF, 1980; JOHNSON, 1987).

 

Vanderney Lopes da Gama

Título: A narrativa insólita em Murilo Rubião: um fantástico inquietante e moderno

Orientador: Alcmeno Bastos Páginas:170



Esta tese tem por objetivo a narrativa insólita de Murilo Rubião, estudada sob óptica existencialista. No entanto, nela, serão discutidas desde as ideias mais tradicionais da narrativa fantástica, seguindo a linha de pensamento de T. Todorov e de Filipe Furtado, até as contribuições mais contemporâneas sobre o tema. Contudo, dentro dessa nova abordagem possível da literatura fantástica moderna, a teoria existencialista de Jean Paul Sartre será elencada como aquela que melhor se aplica às narrativas do escritor mineiro, uma vez que, para o filósofo, o único ser realmente fantástico na atualidade é o homem. Segundo ainda Sartre, o fantástico contemporâneo não necessita de seres sobrenaturais, mortos-vivos, fantasmas, nem de castelos mal-assombrados ou cemitérios, porque o elemento fantástico está preso ao cotidiano do homem [e no homem] que vive tanto nas grandes cidades como nas do interior. Ele é o indivíduo no qual se manifestam as crises pelas quais a humanidade tem passado, as consequências diretas do progresso e da vida tal qual é conhecida.
Dos trinta e quatro contos apresentados aqui, apenas trinta e dois foram publicados quando Murilo Rubião ainda estava vivo. ―A diáspora‖, conto esquecido em um banco de taxi, só foi publicado depois da morte do autor e depois de uma extenuante procura. O conto ―As unhas‖ só chegou recentemente ao conhecimento do público graças à doação da família do escritor ao Centro de Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG, sendo selecionado pela Profª. Vera Lúcia Andrade, atual diretora do CEL, e pela bolsista de Iniciação Científica Ana Cristina Pimenta da Costa Val

 

 

 

Coordenação

Coordenador: Prof. Dr. Adauri Bastos

Vice-coordenadora: Prof. Dra. Maria Eugênia Lammoglia 

Secretário: Maria Goretti Mello
posvernaculas@gmail.com

Atendimento

Além de atender por e-mail, a Secretaria do PPGLEV oferece atendimento telefônico e presencial de segunda a quinta-feira, das 12h às 16h, na sala F-319.

Endereço

Programa de Pós-Graduação em Letras  (Letras Vernáculas)
Faculdade de Letras da UFRJ
Av. Horácio de Macedo, 2151
Sala F-319
Cidade Universitária — CEP 21941-917
Rio de Janeiro — RJ