Útlima atualização 07/03/2017

 

Nesse ano foram defendias 25 Teses.

Alexandre Xavier Lima

Título: Descrição da ortografia portuguesa: a inserção do princípio etimológico na prescrição e na prática gráficas oitocentistas

Orientador: Afranio Gonçalves Barbosa Páginas: 525



Descrevemos a ortografia portuguesa do último quartel do século XIX da variedade brasileira. Tomamos como recorte a inserção do princípio etimológico, tanto na prescrição de regras, quanto na prática gráfica. Para essa descrição, avaliamos o conteúdo grafo-normativo das principais gramáticas brasileiras dos últimos 30 anos do século XIX. Dentre os gramáticos, destacamos Sotero dos Reis (1871), Silva Junior & Andrade (1877), Julio Ribeiro (1881), Alfredo Gomes (1897) e João Ribeiro (1888 e 1894). Procuramos identificar o repertório de grafemas etimológicos, bem como os tipos de regras empregados para a sistematização do uso de cada grafema. Também analisamos as seções noticias e folhetim do periódico Gazeta de Noticias (1877-78). Nesses textos, identificamos os grafemas etimológicos utilizados pelos redatores oitocentistas e apuramos como cada grafema se insere na prática gráfica, tendo em vista seu uso, sua fundamentação e a abertura à variação gráfica. Controlamos a diversidade (palavras diferentes com cada grafema) e a recorrência (recorrência da mesma palavra com um grafema). Por fim, comparamos as normas gráficas (subjetiva e objetiva) verificando se aquilo que os gramáticos prescrevem, em termos gráficos é realmente praticado pelos redatores considerados modelares para a época. Do cotejo das normas subjetiva e objetiva é possível associar a frequência de cada grafema à eficácia de cada regra, ou ainda, a inconsistência e a raridade do uso podem significar a mútua implicação entre norma subjetiva e objetiva. Com esse trabalho, demonstramos em que medida um valor de erudição gráfica serve de parâmetro para a construção de normas coexistentes no período da elaboração da ortografia portuguesa.

 

Ana María Lea-Plaza Illanes

Título: O romance de formação chileno e brasileiro da primeira metade do século XX: narrativas para uma revolução

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza e Patrício Lizama Améstica Páginas:227



A tese é um estudo sobre o Romance de Formação brasileiro e chileno da primeira metade do século XX. O seu objetivo é responder à pergunta sobre como este gênero inicialmente europeu se transforma e se renova ao surgir nesses novos contextos, configurados por pelo menos duas ordens sociais: a ordem oligárquica (ou República Parlamentar, no caso do Chile; República Velha, no caso do Brasil) e a chamada ordem das classes médias. Particularmente, o que nos interessa é descobrir quais são as novas propostas de formação que surgem de textos centrados em personagens que fazem parte da nova configuração social que se está elaborando: pequeno-burgueses em decadência, negros em processo de emergência, campesinos, mulheres etc. Para isso, partimos de uma fundamentação histórica do Romance de Formação que tenta oferecer uma visão dinâmica, cambiante e não dogmática deste gênero que não se restringe, como a crítica conservadora quis propor em diferentes fases da sua história, a um relato bem-sucedido de inserção social burguesa, masculina e europeia. No nosso corpus brasileiro estão as seguintes obras: O Ateneu, Memórias sentimentais de João Miramar, Angústia/Infância, O Moleque Ricardo e Perto do coração selvagem. Já no que diz respeito ao Chile, estudamos: Martín Rivas (Alberto Blest Gana), Alsino (Pedro Prado), Escritura de Raimundo Contreras (Pablo de Rokha) Punta de rieles (Manuel Rojas) e Soñaba y amaba el adolescente Perces (María Carolina Geel).

 

Ana Paula Victoriano Belchor

Título: A morfologia prosódica circunscritiva aplicada ao truncamento no português brasileiro

Orientador: Carlos Alexandre Victório Gonçalves Páginas: 217



Na presente tese, realiza-se a análise do truncamento no português brasileiro, processo não-concatenativo de formação de palavras que consiste no encurtamento de uma base, tal como em ‘depressão’ > ‘deprê’ e ‘estrangeiro’ > ‘estrânja’, por exemplo. Uma vez que as sequências apagadas são muito diversificadas e não podem, desse modo, ser tomadas como afixos, a regularidade do processo torna-se evidente nas próprias formas truncadas, que se mostram morfoprosodicamente uniformes.
A Morfologia Prosódica Circunscritiva foi modelo teórico utilizado na descrição do fenômeno, em virtude de proporcionar a união entre expedientes morfológicos e prosódicos, necessária para justificar o formato dos truncamentos pertencentes ao corpus, que podem ser (a) constituídos das duas primeiras sílabas da palavra-matriz, como ‘refrí’ (‘refrigerante’) e ‘belê’ (‘beleza’); (b) do morfema integral que compõe a borda esquerda da base, tal como ‘odônto’ (‘odontologia’) e ‘nêuro’ (‘neurologista’); ou, ainda, (c) do radical (ou não) da palavra-matriz, acrescido da vogal (-a), como em ‘flágra’ (‘flagrante’) e ‘cáfa’ (‘cafajeste’).
Os dados que integram o corpus analisado distribuem-se em três padrões de formação distintos, acima representados em (a), (b) e (c), devido ao fato de cada grupo de dados apresentar características diferentes quanto aos parâmetros que regem o funcionamento da Morfologia Prosódica Circunscritiva, a saber: a circunscrição do input, que delimita a porção deste a ser aproveitada na forma truncada; e o formato do molde, responsável pela formação de um tipo específico de pé no output, que garante uma tonicidade típica a cada padrão.
Os três padrões estruturais pesquisados, na tese denominados ‘refri’, ‘odônto’ e ‘flágra’, são, portanto, descritos individualmente, de acordo com as especificações de circunscrição e molde que asseguram as marcas formais de cada padrão.

 

Anderson Costa Xavier

Título: Machado de Assis: o pensador poético

Orientador: Adauri Silva Bastos Páginas: 159



A produção literária de Machado de Assis é marcada pelo binômio literatura e filosofia. A partir de uma interpretação hermenêutica, propomos uma leitura comparativa entre a teoria do Humanitismo e os romances Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Isso posto, observamos o rendimento estético da obra, menos como atenuante para as dores da vida do que como aspecto potencializado justamente pela entrega a especulações sobre o que fazemos sobre a Terra.

 

Bruno Cavalcanti Lima

Título: Realização fonética de acrônimos no português brasileiro: uma abordagem morfofonológica através da teoria da otimalidade

Orientador: Carlos Alexandre Gonçalves Páginas: 214



Dentre os processos conhecidos como não-concatenativos ou nãolineares, Gonçalves (2004) cita a Siglagem, que consiste na combinação das iniciais de um nome composto ou de uma expressão. Nos termos de Abreu (2009), as siglas podem ser alfabetismos, ou seja, siglas cuja pronúncia é feita de forma soletrada, como ocorre em FMI (‘Fundo Monetário Internacional’), ou acrônimos, isto é, siglas cuja sequência de letras permite a pronúncia de uma palavra normal, tal como em USP (‘Universidade de São Paulo’). Nesta tese, analisa-se a realização fonética dos acrônimos constituídos por duas (IG: ‘Internet Grátis’), três (PUC: ‘Pontifícia Universidade Católica’) e quatro letras (ENEM: ‘Exame Nacional do Ensino Médio’); alfabetismos, portanto, não serão contemplados na análise. O principal objetivo do trabalho é a comprovação de que os acrônimos são, de fato, palavras da língua, visto que se submetem aos diversos padrões fonológicos pelos quais qualquer outra palavra da língua se submete. Delimitam-se, além disso, características morfológicas e fonológicas do processo. A análise dá-se por meio da Teoria da Otimalidade (McCARTHY & PRINCE, 1993; PRINCE & SMOLENSKY, 1993), modelo paralelista que trabalha com a avaliação de formas a partir de uma hierarquização de restrições, que objetiva, por sua vez, checar possíveis candidatos a output.

 

Carla da Silva Nunes

Título:A ordenação do clítico "se" em complexos verbais nas produções escritas do Brasil e de Portugal nos séculos XIX e XX segundo a perspectiva sociolinguística

Orientador: Silvia Rodrigues Vieira Páginas:285



Esta pesquisa trata do tema da colocação do clítico “se” em estruturas verbais complexas nas amostras brasileira e europeia. Para tanto, vale-se de corpus da modalidade escrita extraído de editoriais, notícias e anúncios produzidos nos séculos XIX e XX. Com base no aporte teóricometodológico da sociolinguística laboviana, desenvolve-se o tratamento estatístico dos dados provido pelo pacote de programas Goldvarb-X. Investigam-se, então, as trajetórias dos diferentes tipos de “se”, como ponto de partida para se atestar as possíveis semelhanças e diferenças entre as escritas brasileira e a europeia. Além disso, verifica-se se o comportamento dos dados reflete a existência de uma regra variável em cada uma das variedades. Assim, analisam-se os possíveis condicionamentos linguísticos e extralinguísticos favorecedores das variantes cl V1 V2 (se pode fazer), V1-cl V2 (pode-se fazer), V1 cl V2 (pode se fazer) e V1V2-cl (pode fazer-se).
Observa-se que a modalidade escrita, por vezes, aproxima as normas brasileira e europeia quanto ao fenômeno da ordem, como no contexto de início absoluto de período/oração, em se que recusa a próclise a V1 nas duas amostras, e aos complexos participiais, que não registram qualquer dado de ênclise a V2. Os padrões cultos escritos brasileiro e europeu aproximam-se, especificamente, no caso do indeterminador, nos dois séculos em questão. Por outro lado, o uso do reflexivo parece ser a questão central na diferenciação entre as duas normas estudadas.
Enquanto os brasileiros parecem vincular as suas escolhas aos tipos de “se”, em que o reflexivo tende a figurar adjacente a V2 (inclusive em próclise) e o indeterminador adjacente a V1, os europeus o fazem de forma mais suave e parecem relacionar suas escolhas também à forma do verbo principal e à presença de “proclisador”, especialmente com o indeterminador, mas distante de valores categóricos, de modo que se atesta nesse contexto uma regra efetivamente variável. A atuação do “proclisador” com o reflexivo é branda também no PE, mesmo assim, um pouco mais efetiva do que no PB. Ao final do século XX, as diferenças evidenciam-se ainda mais quando se registra o aumento da próclise a V2 no Brasil. No PE a variante nem sequer é legítima/natural, e por isso, não empregada. Quanto à análise da avaliação das variantes, com base nos questionários, as tendências apontadas podem ser confirmadas.

 

Cíntia Machado de Campos Almeida

Título: Viagens de fora para dentro: profanações e vagamundagens de Luís Carlos Patraquim

Orientador: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco Páginas:274



Interpretação da obra poética de Luís Carlos Patraquim, expoente da literatura moçambicana contemporânea. Reflete-se acerca da paisagem, que no início de sua trajetória lírica, era captada de fora para dentro: o olhar poético partia dos contornos físicos de seus redores para então alcançar suas possíveis dimensões simbólicas – lugares íntimos, suscitados pelas memórias. No decorrer de três décadas e meia de carreira literária e oito livros de poesia publicados, o olhar do poeta entranhou-se corpo adentro. Partindo da pele, passou a mirar, gradativamente, a carne, o sangue, os ossos, os brônquios até alcançar o inconsciente, cuja dimensão metafísica, metaforizada pelo escuro, empreendeu uma busca pelas origens do ato de criação poética. Em contrapartida, à proporção que minimalizava suas referências paisagísticas, Patraquim expandia suas referências intertextuais: o poeta, que se lança à literatura em 1980 estabelecendo diálogos, em sua maioria, restritos a nomes representativos da poesia em língua portuguesa, paulatinamente amplia suas possibilidades dialógicas, universalizando-as. Defende-se a hipótese de que o poeta moçambicano, livro a livro, interioriza sua percepção de mundo, na medida em que alarga os percursos simbólico e intertextual de sua poesia. Aborda-se a paisagem como instância reflexiva de desejos, memórias e afetos e discorre-se acerca dos múltiplos sentidos deste conceito na escrita lírica de Patraquim. Discute-se as profanações da poesia patraquimiana, segundo Giorgio Agamben. As bases metodológicas desta tese articulam a literatura com a história, a geografia e a sociologia.

 

Fernanda Antunes Gomes da Costa

Título:Paula Tavares e a poética dos sentidos

Orientador: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco Páginas:185



Este estudo tem como meta principal a leitura crítica da obra poética de Paula Tavares, importante representante da literatura angolana de língua portuguesa na contemporaneidade, reconhecida, principalmente, pelo valor estético de sua poesia. Serão analisadas as seis obras poéticas dessa poetisa, com o objetivo de flagrar, por entre imagens e palavras, os frutos amargos de um lirismo que (re)visita Angola, a partir da experiência do sujeito poético com o mundo que o cerca. Os sentidos e a percepção estão presentes em metáforas dos poemas da escritora e revelam como as impressões da vida se perpetuam na pele dos seus versos. Sendo assim, será discutida a relação entre a percepção, o presente e a memória; entre os sentidos, o amor e a poesia. Contudo, a originalidade da tese está, justamente, na seguinte indagação: “Qual é o sentido da ‘poética dos sentidos’ para essa poetisa?” A percepção se manifesta corporal e intelectualmente na poesia de Paula Tavares e, por isso, não será evidenciada apenas a presença da sensibilidade do corpo no seu texto poético. O propósito do estudo é entender a percepção como caminho para aquilo que a poesia dessa autora angolana deseja trazer à tona. A percepção como possibilidade de trajetória poética, de percurso lírico. Para fundamentar a pesquisa, serão convocados diversos teóricos, ensaístas, estudiosos das literaturas africanas e o filósofo Maurice Merleau-Ponty, que sustentará o fio da nossa reflexão.

 

Gilberto Araújo de Vasconcelos Júnior

Título:O poema em prosa no Brasil (1883-1898): origens e consolidação

Orientador: Antonio Carlos Secchin Páginas:301



A tese estuda as origens e a consolidação do poema em prosa no Brasil, no período compreendido entre 1883, data de publicação em jornal das primeiras “canções sem metro”, de Raul Pompeia, e 1898, ano da morte de Cruz e Sousa, responsável pela reconfiguração do gênero. Embora apenas no Simbolismo o gênero tenha-se estabelecido, seja pela sistematização teórica, ou pela propagação de ocorrências, identificam-se em nosso Romantismo obras prefiguradoras dessa prática, brevemente analisadas na tese para investigar em que medida (não) lograram executar o projeto de rasura dos gêneros literários. Visa-se ainda diferenciar tais obras românticas de outras coetâneas que, não obstante empenhadas em diluir fronteiras, não ultrapassaram o domínio da prosa poética.

 

Iracy Conceição de Souza

Título:A experiência poética com o indizível: Ana Luísa Amaral, João Maimona e Salgado Maranhão.

Orientador: Ângela Beatriz de Carvalho Faria Páginas:215



Esse trabalho visa à leitura das obras de três poetas da Lusofonia — Ana Luisa Amaral (Portugal), João Maimona (Angola) e Salgado Maranhão (Brasil) para perceber como os poetas, artesãos das palavras, antecipam as descobertas das ciências do homem e como a poesia, sendo uma construção significante, gira em torno do vazio. Procura-se mostrar que os poemas são expressões da virtualidade de um mundo hipotético, um fenômeno inesperado, o escândalo da enunciação, visto que este se define mais pela libertação de virtualidades, pela imaginação que tudo revoluciona, desarruma, interroga, do que por um estreitamento de plenitude intelectiva. Jacques Lacan constata que o dizer dos poetas escapa à razão, apontando não só para a existência de uma Outra cena — o Inconsciente —, mas também para o real, como impossível de ser simbolizado.

 

Manuela Colamarco Pereira Gomes

Título: Referenciação e construção de sentido nas fábulas de Monteiro Lobato e Esopo

Orientador: Leonor Werneck dos Santos Páginas:188



Esta pesquisa observa, à luz da Linguística de Texto, de que modo a referenciação constitui elemento basilar na construção de sentido de fábulas, um gênero textual predominantemente narrativo. A análise de dez fábulas de Monteiro Lobato em contraponto a dez fábulas de Esopo investiga o papel da referenciação na construção de sentido das narrativas pela avaliação crítica dos objetos de discurso envolvidos no projeto de dizer, representados pelo material linguístico do texto (expressões referenciais e pistas textuais). Antes, porém, procede-se a uma revisão teórica do processo da referenciação e propõe-se uma revisão da classificação, principalmente em relação ao conceito da introdução referencial. Ainda, as estratégias de referenciação e as expressões referenciais nominais, identificadas nas fábulas nacionais e nas versões clássicas, são submetidas a análises qualitativa e quantitativa com vistas à observação de padrões de uso nos textos de cada um dos autores. Nas narrativas de Esopo, a preferência pelas anáforas pronominais e a utilização de expressões referenciais nominais menos marcadas semanticamente constroem um simulacro de neutralidade, levando o leitor a identificar como verdade absoluta a moralidade. Já nas narrativas de Monteiro Lobato, as anáforas recategorizadoras predominam, e a avaliação dos elementos representados por expressões referenciais nominais é constante e explícita. Com isso, o leitor observa uma tomada de posição por parte do narrador, colocando-se de forma crítica diante do que lê. Finalmente, transpõese a metodologia de análise do processo da referenciação nas fábulas para o estudo da Língua Portuguesa na educação básica, a partir da confecção de materiais didáticos.

 

Marcelo José Fonseca Fernandes

Título:O conto simbolista no Brasil seguido de antologia comentada

Orientador: Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira Páginas:306



A presente tese estuda a ocorrência e propõe uma antologia do conto simbolista no Brasil, levantando as causas de sua omissão nos manuais de Educação Básica e da pouca atenção pela crítica especializada. Ao examinarmos a produção finissecular em prosa curta, encontramos notáveis autores que estagnaram suas obras em primeira e única edição e que jamais tiveram seus contos reproduzidos no todo ou em parte, em qualquer seleta de Literatura Brasileira, como Nestor Victor, Lima Campos, Rocha Pombo e Alberto Rangel, além de Gonzaga Duque, Oscar Rosas, Virgílio Várzea, Medeiros e Albuquerque, Gastão Cruls, Xavier Marques e o quase desconhecido Galpi (Galdino Pinheiro).
Assim, abordamos as críticas pouco receptivas do advento do Simbolismo e suas paráfrases na contemporaneidade, bem como a problemática da periodização literária que situa a estética de Cruz e Sousa entre as estreitas balizas de 1893-1902.
Portanto, através das onze narrativas consignadas e organizadas sob forma de antologia comentada, pretende-se resgatar estes autores e trazer à luz narrativas acentuadamente simbolistas, caracterizadas pela forte andamento poético, estilo dúctil, descrições pictóricas e cromáticas, de ricos recursos estilísticos, e armadas sobre uma fabulação peculiar e notável.

 

Marcos Estevão Gomes Pasche

Título:A improvável encruzilhada: neoclassicismo e modernidade em Alexei Bueno, Glauco Mattoso e Ivan Junqueira

Orientador: Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira Páginas:119



A tese A improvável encruzilhada: neoclassicismo e modernidade em Alexei Bueno, Glauco Mattoso e Ivan Junqueira estuda a obra desses três poetas brasileiros contemporâneos com o objetivo de identificar de que maneira a poesia neoclássica é recebida pela crítica literária atual, em algumas de suas modalidades – a jornalística, a universitária e a que atua nos prêmios literários, por exemplo. A pesquisa, dividida em duas partes, procura demonstrar, em seu início, que o classicismo não é um termo de significado artístico absolutamente uniforme, e sua variedade se confirma nos momentos em que é retomado ao longo da história da arte. Em seguida, a tese analisa como os estilos literários brasileiros caracterizados como neoclássicos são avaliados por historiadores e críticos, e, após a análise, constata que, por consequência da ideologia vanguardista, a poesia tradicionalista feita depois do Modernismo é interpretada como retrógrada. Por se manter na atualidade, esse tipo de interpretação permite relativizar as teses afirmadoras da pluralidade pós-modernista e contemporânea. Na segunda parte, a tese estuda especificamente as obras poéticas de Ivan Junqueira, Alexei Bueno e Glauco Mattoso, destacando suas particularidades artísticas, realçando o que neles é tradicional e moderno, afirmando, por fim, que suas poéticas dão ao conceito de contemporaneidade um significado problemático e inovador.

 

Mariana Conde Moraes Arcuri

Título: A presença da imagem nos contos de Joaquim Cardozo

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas:106



Medianamente conhecido como poeta, Joaquim Cardozo é quase absolutamente desconhecido em sua pequena, porém vigorosa e única, produção ficcional. Os doze contos escritos por Cardozo foram reunidos pelo próprio para publicação em volume, a se chamar Água de chincho, mas permaneceram inéditos em livro por mais de 25 anos após sua morte, em 1978. Seus contos quase todos indicam relatos de experiências pessoais, respiram uma atmosfera de vivência particular, não apenas por apresentarem uma narrativa de primeira pessoa, mas, sobretudo, por contarem com um narrador que comumente embute no texto um tom de veracidade e incute a idéia de se tratar de um episódio ocorrido de fato. O tratamento essencialmente narrativo conferido a certos contos, além da frequência significativa de trechos assaz descritivos, por vezes os torna semelhantes a simples crônicas sobre paisagens e acontecimentos aleatórios. No entanto, a narrativa escapa ao clima de desenvolvimento de um relato mero – e aí Cardozo se mostra bruxo oportuno, ajuntando sentidos, memória, sonhos, tensão e desarranjos psíquicos em imagens reiteradas. São exatamente seus contos e suas imagens, profundamente vinculados ao sonho, ao fantástico e ao sobrenatural, que buscamos analisar neste trabalho, bem como a forma pela qual esse mesmo elemento maravilhoso se insere na prosa cardoziana.

 

Máxima de Oliveira Gonçalves

Título:Desejo, interdito e transgressão na poética de Cruz e Souza

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto Páginas:162



Desejo, interdito e transgressão na poética de Cruz e Sousa defende a tese de que a obra do poeta catarinense esteve, desde seus primeiros livros, permeada por uma recorrente eroticidade. Em Broquéis, os versos exprimem o desejo por mulheres, em sua maioria, brancas e inacessíveis. No entanto, ao longo de sua produção literária, esse desejo por musas europeias e distantes vai aos poucos sendo substituído por mulheres de descendência africana, acessíveis e de intensa sensualidade. Talvez o poeta tenha escrito os seus mais belos versos inspirado nessas deusas de ébano.
O erotismo em Cruz e Sousa fundamenta-se também no modo infrator de utilizar recursos melódicos e visuais, criando, assim, uma linguagem poética original. Outra especificidade desse viés transgressor do poeta encontra-se na quebra da estrutura sintática, acarretando numa aparente desordem formal que irá, todavia, por meio de uma linguagem concentrada em si mesma e de uma musicalidade singular, permitir-lhe maior liberdade expressiva. O uso de tais procedimentos o aproximará de poetas decadentistas franceses, especialmente de Charles Baudelaire – cuja estrutura poética, de intensa força sonora, se distanciava da ordem lógica e objetiva – concedendo-lhe importante papel na lírica do Modernismo brasileiro. Os reflexos da experimentação com a linguagem de Cruz e Sousa incidem, ainda hoje, em poetas afrodescendentes da literatura nacional, legitimando, assim, mais uma vez, a grandeza de sua obra.

 

Nubia Graciella Mendes Mothé

Título:Notícias de além-mar: variação e mudança no uso de infinitivo gerundivo no português europeu ao longo do século XX

Orientador: Afranio Gonçalves Barbosa Páginas:117



Esta tese investiga, diacrônica e diatopicamente no Português Europeu (PE), a variação entre as formas nominais que indicam aspecto progressivo em Língua Portuguesa: o gerúndio e a construção a + infinitivo, chamada de infinitivo gerundivo. Usando os pressupostos teóricos da Sociolinguística Histórica de base laboviana, o objetivo central desta tese foi encontrar fatores que condicionaram o avanço do infinitivo gerundivo em terras lusas, buscando observar, ao alcance do nosso corpus de análise, como essa construção se distribui ao longo do tempo (século XX) e do espaço do território lusitano. Pretendia-se, também, confirmar se essas regiões de Portugal antes apontadas como mais conservadoras quanto ao uso do gerúndio permanecem com tal comportamento e, se sim, em que medida e circunstâncias.
Os resultados obtidos sugerem que o avanço do infinitivo gerundivo no PE foi mais significativo em três diferentes fases ao longo do século XX: na virada da década de 1920 para 1930; depois, na virada da década de 1950 para 1960; e ao fim do século XX, entre as décadas de 1980 e 1990. Tal avanço, ainda segundo nossos dados, teria se dado de forma mais expressiva nas construções perifrásticas formadas pelos verbos auxiliares estar, andar, ficar e continuar + a + infinitivo. Outro resultado bastante relevante desta pesquisa sinaliza que o infinitivo gerundivo tem sido usado, ao menos nas notícias dos jornais do século XX utilizadas como corpus, de forma indistinta em todas as cinco regiões de Portugal estudadas, o que pode indicar tanto uma padronização desse gênero textual quanto uma generalização da variante inovadora mesmo nas regiões frequentemente apontadas como conservadoras.
Ademais, para além do estudo de cunho variacionista, uma parte essencial da tese diz respeito à própria construção do corpus de análise, composto por notícias de jornais portugueses do século XX provenientes das cinco regiões de Portugal estudadas (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve). Esse material inédito, levantado diretamente dos arquivos portugueses durante estágio no exterior, composto a partir de edições de periódicos da imprensa nacional e da imprensa regional portuguesas de cada uma das décadas do século XX, é riquíssimo não somente para este trabalho, mas para posteriores investigações acerca dos mais variados temas, tais como língua, literatura e sócio-história lusitanas.

 

Rafael Santana Gomes

Título: Lições do Esfinge Gorda

Orientador: Teresa Cristina Cerdeira Páginas:315



A proposta desta tese é a de ler as narrativas Princípio, A Confissão de Lúcio e Céu em Fogo de Mário de Sá-Carneiro a partir do conceito de educação às avessas. Ao proclamar a autonomia da arte, a geração de Orpheu rejeitava o pensamento oitocentista que entrelaça educação e literatura, e que caracteriza o projeto tanto da estética romântica quanto da realista. Promulgando a ideia da autorreferencialidade da arte, o Modernismo português – na contramão da grande tradição do século XIX – rechaça, com veemência, a noção de que o artista seria aquele que tem uma missão social a cumprir. No entanto, ao produzirem uma literatura que visava a romper com uma vertente marcadamente engajada por meio de gestos rebeldes e iconoclastas, os de Orpheu acabaram por propagar o anseio por uma nova pauta de valores autênticos, contribuindo, a seu modo, para a renovação das consciências. Herdeiro das reformulações éticas e estéticas do movimento finissecular – ao qual a sua tertúlia literária declaradamente se filia –, Mário de Sá-Carneiro constrói na sua obra um mundo onírico e abstrato, assinalado pela quebra da lógica e da racionalidade científica, propondo, desta forma, um novo e perverso conceito de educação, que se inscreve no avesso do modelo anterior.

 

Rhea Sílvia Willmer

Título:Ana Luísa Amaral e Ana Cristina Cesar: modos de pensar o feminino na poesia contemporânea em português

Orientador: Jorge Fernandes da Silveira e Rosa Maria Martelo Fernandes Pereira Páginas:153



Ana Cristina Cesar (1952-1983) e Ana Luísa Amaral (1957) problematizam a subjetivação no feminino a partir da tradição literária, enquanto Ana Cristina Cesar, de certa forma, apropria-se de um lugar na tradição Modernista brasileira, escrevendo como nenhuma mulher modernista chegou a escrever, Ana Luísa Amaral prefere retomar a tradição e subvertê-la, evitando colocar-se ao lado dessa tradição. Pretendemos, a partir disso, observar como a questão da revisão da tradição erudita se apresenta na poesia a partir de um olhar no feminino.

 

Rosângela Gomes Ferreira

Título:Um tipo de consteução XYZ: nova proposta de análise

Orientador: Maria Lucia Leitão de Almeida Páginas:195



Esta tese se propõe a estudar o angulador “um tipo de”, que, por sua vez, instancia possibilidades da construção XYZ. Para a abordagem desse tema, lançaremos mão dos pressupostos da Linguística Cognitivista, (LAKOFF (1987), mais especificamente da Teoria dos Espaços Mentais (FAUCONNIER (1985, 1994, 1997), FAUCONNIER & TURNER (2002), TURNER (1997)) e estudos recentes de Bybee (2010). Os anguladores são elementos que flexibilizam as fronteiras entre os itens escopados, apontando para a subjetividade do falante, indicando, na linguagem, processos que acontecem em nossas mentes e que não podemos nem ver nem ouvir.
Os principais reconhecimentos desta tese são: 1) a necessidade de se fazer um recorte para estudar a categoria dos anguladores; 2) a construção específica na língua que é instanciada pelo angulador em análise, no caso, a XYZ; 3) as diversas estruturas léxico-gramaticais e os tipos de redes de integração conceptual ativados por tal construção; e 4) o fato de essas construções apresentarem o mesmo mapeamento conceptual, mas com níveis de complexidade distintos, provenientes do nível de abstratização que elas apresentam.
As duas principais contribuições desta tese são a comprovação, com base em um fenômeno da língua portuguesa, de que realmente não há distinção entre os diversos níveis da gramática, premissa básica em Linguística Cognitiva, e a sugestão de que os anguladores analógicos apontam para a perspectivização do falante, confirmando a ideia de língua como atividade constitutiva, visto que é um espaço de criação e recriação da realidade.

 

Roberto Costa Assumpção

Título: A dialética do bem e do mal em Grande Sertão: Veredas

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza Páginas:147



Este trabalho propõe-se a interpretar Grande Sertão: Veredas - na perspectiva do discurso narrativo - como um jogo de forças antagônicas. A dialética do bem e do mal mostra características que o romance apresenta e como se utiliza de elementos poéticos, míticos, religiosos e narrativos para criar este mundo amplo e particular, onde forças contraditórias formam um todo homogêneo. O título da Tese dá a justa medida da imaginação poética que o universo rosiano demanda, pois "tudo é e não é". Dessa forma o trabalho se divide em cinco partes: o narrador, inspirações do narrador, o mal encarnado, o mal e o pacto e os adversários do mal. Capítulos que procuram demonstrar como esta dialética de bem e mal perpassa o romance sob vários aspectos, indicando que o imbricamento entre as forças maléficas e divinas constituem o caminho rumo à sabedoria: travessia. Nossa hipótese postula que nos vários planos estruturais da obra coexistem oposições, conflitos e reversibilidade entre as potências do bem e do mal. E tais oposições determinam que uma perspectiva sábia está no conhecimento de que estas oposições devem coexistir e auxiliar na caminhada das veredas da existência.

 

Simone Cristina Manso Escobar

Título: Abel Botelho - escritor "de entre tempos": literatura e artes plásticas em diálogo

Orientador: Luci Ruas Pereira Páginas:227



Esta pesquisa propõe a leitura de dois romances do escritor Abel Botelho: O Barão de Lavos (1891), e O Livro de Alda (1898). As duas obras analisadas integram a série intitulada Patologia Social, que ainda conta com mais três romances: Amanhã (1901), Fatal Dilema (1907) e Próspero Fortuna (1910). Abel Botelho foi um escritor que produziu sua obra, essencialmente, no último quartel do século XIX, período conhecido como fin-de-siècle. As constantes referências à arte, seja ao clássico grego, seja ao clássico renascentista e ao barroco, observadas ao longo dos romances; certos vestígios de cariz romântico, em parte herdados de Camilo Castelo Branco, em parte das próprias tendências neorromânticas finisseculares, ao lado de sua evidente filiação ao naturalismo, transformam-no num escritor que, ao contrário de certa crítica, que o vê como ortodoxo, fazem de Abel Botelho um escritor que não se fixa apenas em uma escola literária. Nesta tese objetiva-se a análise e interpretação dos romances O Barão de Lavos e O livro de Alda pelo viés estético, propondo refletir sobre o diálogo entre as duas formas artísticas presentes nos textos – a literatura e a pintura –, ambas produtoras de imagens, e sobre o modo como os tendências artísticas fin-de-siècle nelas se manifestam. Ao ponto de permitir que seja considerado um escritor de “entre tempos”, em quem se reconhece a filiação ao realismo-naturalismo com incursões significativas pelo decadentismoexpressionismo.

 

Simone Sant'Anna

Título: Polifonia e metáfora no discurso de Dilma Rousseff: a construção do ethos

Orientador: Aparecida Lino Pauliukonis Páginas:132



A presente pesquisa enfoca o emprego de recursos da polifonia e da metáfora no discurso oficial de Dilma Rousseff como uma importante e produtiva estratégia argumentativa para a construção de sua imagem (ethos) como primeira mulher eleita presidente do Brasil. Tradicionalmente tratadas como figuras de linguagem ou meros recursos estilísticos, as estruturas metafóricas passam a ser consideradas hoje importantes instrumentos cognitivos da linguagem corrente e um dos meios mais frequentes de expansão semântica dos itens lexicais. Assim, a metáfora passa a ser vista como fenômeno conceitual e importante modelo cognitivo de apreensão da realidade. A presente perspectiva pretende, assim, uma nova abordagem da metáfora e dos conceitos de dialogismo e polifonia propostos por Bakhtin (1995), ao investigar o caráter argumentativo e a função discursiva que os efeitos de sentido de seu emprego acarretam. Com base nos princípios da Análise do Discurso e nos conceitos de ethos, pathos da Nova Retórica, das noções de dialogismo e polifonia bakhtinianos e de metáfora conceptual da Linguística Cognitiva, realizou-se uma análise dos trechos nos quais as ocorrências metafóricas apresentam função retórico-argumentativa, responsável pela construção de imagens (ethé) da Presidente Dilma, capazes de convencer o auditório visado (pathos) do universo de seus eleitores. O corpus foi constituído por ocorrências em 48 discursos políticos oficiais sobre temas diversos proferidos pela presidente Dilma Rousseff, durante o primeiro semestre de 2011, primeiro ano de seu governo, obtidos no site do planalto http:∕∕www2.planalto.gov.br. O arcabouço teórico utilizado conta com contribuições da Teoria Semiolinguística de Charaudeau (2008), dos conceitos de ethos prévio e ethos discursivo de Maingueneau e Amossy (2008; 2011), da Semântica argumentativa de Anscombre e Ducrot (1997) e da visão da metáfora conceptual, a partir das propostas de Lakoff & Johnson (2002). Os resultados da análise apontam que a escolha polifônica e metafórica está diretamente relacionada ao propósito argumentativo do sujeito enunciador, constituindo-se sua análise uma proposta bastante produtiva para o tratamento do texto argumentativo.

 

Veronica Prudente Costa

Título: Muraida: a tradição literária de viagens em questão

Orientador: Jorge Fernandes da Silveira Páginas:158



Em 1785, o militar português Henrique João Wilkens, que estava a serviço da Coroa portuguesa nas Comissões de Demarcação dos Limites nos ―sertões‖ amazônicos, escreve o poema Muhuraida ou Triumpho da fé na bem fundada Esperança da enteira Conversão, e reconciliação da Grande, e feróz Nação do Gentio Muhúra, no quartel da Vila de Ega, atual cidade de Tefé- AM. Muraida é o primeiro texto poético, com estrutura épica, escrito em Língua Portuguesa, sobre um tema relativo ao território que hoje se configura como amazônico, e através desse épico podemos vislumbrar uma das faces dessa empreitada colonial. A etnia Mura, qualificada como ―abominável‖, ―feroz‖ e ―indomável‖ é o objeto do ―triunfo da fé‖ celebrado no poema de Wilkens. Privilegiando as ideias de Eduardo Lourenço sobre a colonização portuguesa no Ocidente, estabelecemos um contraponto entre o colonizador e o colonizado, privilegiando a imagem construída sobre o índio Mura, a partir do olhar do colonizador e a construção imagística que o colonizador fez sobre a Amazônia. Discutimos o conceito de literatura de viagens e levantamos a hipótese de que Muraida pode ser inserida nesta vertente do cânone lusitano, a partir das tensões, convergências e divergências entre este épico e o mais importante texto de viagens da Literatura Portuguesa, Os Lusíadas, de Camões. A partir dessa leitura comparada e das tensões analisadas, defendemos que Muraida, assim como Os Lusíadas, configura-se como o olhar e a voz do colonizador, ainda que pretensamente desenvolva perspectivas da voz do Outro.

 

Vinicius Maciel de Oliveira

Título: Análise de construções de movimento no português brasileiro

Orientador: Marcia dos Santos Machado Vieira Páginas:145



Objetivo desta tese é o de analisar construções de movimento do português que se estruturam em torno do verbo ir. Com base na hipótese de que esse verbo forma com o complemento preposicionado e o sujeito uma construção gramatical, tal como propõe Goldberg (1995), investigam-se (i) as propriedades morfossintáticas e semânticas que envolvem toda a construção e os elementos que dela participam; (ii) a relação entre as instâncias de uso, ou contextos de uso, e a emergência de construções com ir, de modo que se demonstre que a construção analisada é uma instanciação de uma construção maior de movimento; (iii) os processos semânticos, identificados neste estudo como metaforização e metonimização, que permitem observar graus distintos de extensão semântica dos elementos constituintes da construção; e (iv) o nível de fusão entre os itens da construção, para que se verifiquem diferentes tons de lexicalidade.
Para a descrição das propriedades morfossintáticas e semânticas, verificam-se aspectos sobre o sujeito, como animacidade e controle, sobre a preposição, buscando-se estabelecer diferenças, sobretudo semânticas, entre o uso de a, para e em, sobre o sintagma nominal projetado pela preposição, pautando-se num continuum que vai de locativos prototípicos, como casa, fazenda até elementos que não fazem referência, sequer indireta, a locativos, como é o caso dos itens loucura e falência e sobre o próprio verbo ir, que será analisado tendo em vistas suas flexões, seus usos em contextos de movimento bem genérico e em contextos de processos recorrentes que, segundo Bybee (2010), se tornam hábitos.
Para a explicação da emergência de construções de movimento com ir, buscam-se orientações em Goldberg (1995) sobre o conceito de construção gramatical e como processos de ordem cognitiva podem levar a tal emergência. Avalia-se, também, a pertinência dos pressupostos de Bybee (2010) e de Dik (1997), acerca de contextos discursivos. A primeira colabora teoricamente, no que concerne ao já citado de unidades pré-fabricadas, cujo conceito dialoga, sobremaneira, com o de idiomaticidade. O segundo autor fundamenta esta tese no que diz respeito às definições de predicado e predicação.
Sob a hipótese de que ir não sofre os efeitos do processo de gramaticalização por inteiro, já que não é possível descrever tal item verbal sob a concepção de um cline Léxico > Gramática, a pesquisa busca evidências para demonstrar que esse verbo passa por estágios iniciais de gramaticalização, nos quais se observa processos de extensão semântica que caminham para uma subjetivação/abstratividade.
Com a finalidade de testar níveis distintos de lexicalidade, a partir da observação do grau de fusão entre os itens da construção, recorre-se a fontes como Brinton e Traugott (2005), sobre os princípios fundamentais da lexicalização e as propriedades que fazem jus a uma abordagem em interface à gramaticalização; e Zuluaga (1975) e Esteves (2012), acerca de parâmetros de checagem de uma estrutura lexicalizada.
Diante dessas análises empreendidas, percebe-se a participação de ir em uma construção de movimento que decodifica eventos gerais e costumeiros, o que pode gerar o desgaste específico da construção e fazendo com que ela se associe a contextos bem abrangentes. Por ser um verbo de orientação dêitica, como define Vilela (1992), as construções analisadas sempre exibirão um movimento de aproximação ao espaço, físico ou não, do interlocutor. O grau de referencialidade desses movimentos sofrem interferências, de acordo com os níveis de expansão semântica e de fusão entre os integrantes da construção.

 

Vivian de Oliveira Quandt

Título: A lateral palatal no português do Brasil e no português europeu

Orientador: Silvia Figueiredo Brandão e João Antônio de Moraes Páginas:215



Objetivo desta tese é o de analisar construções de movimento do português que se estruturam em torno do verbo ir. Com base na hipótese de que esse verbo forma com o complemento preposicionado e o sujeito uma construção gramatical, tal como propõe Goldberg (1995), investigam-se (i) as propriedades morfossintáticas e semânticas que envolvem toda a construção e os elementos que dela participam; (ii) a relação entre as instâncias de uso, ou contextos de uso, e a emergência de construções com ir, de modo que se demonstre que a construção analisada é uma instanciação de uma construção maior de movimento; (iii) os processos semânticos, identificados neste estudo como metaforização e metonimização, que permitem observar graus distintos de extensão semântica dos elementos constituintes da construção; e (iv) o nível de fusão entre os itens da construção, para que se verifiquem diferentes tons de lexicalidade.
Para a descrição das propriedades morfossintáticas e semânticas, verificam-se aspectos sobre o sujeito, como animacidade e controle, sobre a preposição, buscando-se estabelecer diferenças, sobretudo semânticas, entre o uso de a, para e em, sobre o sintagma nominal projetado pela preposição, pautando-se num continuum que vai de locativos prototípicos, como casa, fazenda até elementos que não fazem referência, sequer indireta, a locativos, como é o caso dos itens loucura e falência e sobre o próprio verbo ir, que será analisado tendo em vistas suas flexões, seus usos em contextos de movimento bem genérico e em contextos de processos recorrentes que, segundo Bybee (2010), se tornam hábitos.
Para a explicação da emergência de construções de movimento com ir, buscam-se orientações em Goldberg (1995) sobre o conceito de construção gramatical e como processos de ordem cognitiva podem levar a tal emergência. Avalia-se, também, a pertinência dos pressupostos de Bybee (2010) e de Dik (1997), acerca de contextos discursivos. A primeira colabora teoricamente, no que concerne ao já citado de unidades pré-fabricadas, cujo conceito dialoga, sobremaneira, com o de idiomaticidade. O segundo autor fundamenta esta tese no que diz respeito às definições de predicado e predicação.
Sob a hipótese de que ir não sofre os efeitos do processo de gramaticalização por inteiro, já que não é possível descrever tal item verbal sob a concepção de um cline Léxico > Gramática, a pesquisa busca evidências para demonstrar que esse verbo passa por estágios iniciais de gramaticalização, nos quais se observa processos de extensão semântica que caminham para uma subjetivação/abstratividade.
Com a finalidade de testar níveis distintos de lexicalidade, a partir da observação do grau de fusão entre os itens da construção, recorre-se a fontes como Brinton e Traugott (2005), sobre os princípios fundamentais da lexicalização e as propriedades que fazem jus a uma abordagem em interface à gramaticalização; e Zuluaga (1975) e Esteves (2012), acerca de parâmetros de checagem de uma estrutura lexicalizada.
Diante dessas análises empreendidas, percebe-se a participação de ir em uma construção de movimento que decodifica eventos gerais e costumeiros, o que pode gerar o desgaste específico da construção e fazendo com que ela se associe a contextos bem abrangentes. Por ser um verbo de orientação dêitica, como define Vilela (1992), as construções analisadas sempre exibirão um movimento de aproximação ao espaço, físico ou não, do interlocutor. O grau de referencialidade desses movimentos sofrem interferências, de acordo com os níveis de expansão semântica e de fusão entre os integrantes da construção.

 

 

 

Coordenação

Coordenador: Prof. Dr. Adauri Bastos

Vice-coordenadora: Prof. Dra. Maria Eugênia Lammoglia 

Secretário: Maria Goretti Mello
posvernaculas@gmail.com

Atendimento

Além de atender por e-mail, a Secretaria do PPGLEV oferece atendimento telefônico e presencial de segunda a quinta-feira, das 12h às 16h, na sala F-319.

Endereço

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